Acompanho a Taça Guanabara desde que o Vasco venceu (2 x 0) o Botafogo, na decisão de 1965, ano do quarto centenário do Rio de Janeiro. Nenhuma foi de tão fácil prognóstico quanto à de hoje (23), em que o Flamengo, com time reserva na maior parte do jogo, fez a virada de 2 x 1 no Boavista e ganhou seu vigésimo segundo título, assegurando vaga nas finais, como favorito ao título carioca de 2020. No fim desta matéria conto uma historinha.

BEM SUPERIOR – Mesmo com a maioria de reservas o Flamengo foi bem superior ao Boavista, ainda que sofrendo o gol de falta – de Leo Pereira em Jefferson -, logo aos sete minutos, em bela cobrança do lateral-esquerdo Jean, no ângulo, sem chance para o goleiro Cesar, em seu primeiro jogo do ano. O Flamengo demorou, mas empatou antes da saída para o intervalo, com o gol de Diego, de primeira, aos 44, após assistência de letra de Pedro.

EQUILÍBRIO – A entrada de Everton Ribeiro no intervalo, saindo Diego, deu o toque de equilíbrio. O time passou a mostrar mais segurança, que aumentou, a partir dos 16 minutos, com Arão no lugar de Tiago Maia. A troca que em nada influiu foi aos 28, quando Gerson substituiu Vitinho, que ainda não justificou investimento tão elevado. Em seu jogo 300, Gabriel fez o quinto gol em cinco jogos este ano, o da virada, aos 35 minutos.

138 GOLS – Gabriel chegou aos 178 gols pelo Flamengo ao completar 300 jogos como profissional, em que estreou contra seu time atual, no 0 x 0 com o Santos, em amistoso de despedida de Neymar, em 26 de maio de 2013, no estádio Mané Garrincha, em Brasília. O desempenho no Santos – bicampeão paulista e duas vezes artilheiro da Copa do Brasil, em 2014 e 2015 – fez a Inter de Milão comprá-lo por 27 milhões de euros.

APAGADO – Gabriel foi um artilheiro apagado na Europa. Não conseguiu ir além de um gol, em dez jogos na Inter de Milão, e de um gol, em cinco jogos no Benfica, que o devolveu à Inter em seis meses, metade do tempo de empréstimo. O Santos o trouxe de volta, mas ele também não foi o mesmo. Só recuperou o brilho em 2019 no Flamengo, campeão e artilheiro do Carioca, do Brasileiro e da Libertadores, mas apagado na final do Mundial.

BOM LEMBRAR – Não chegou a ser tão acentuada, mas Gabriel sofreu restrição, por ser canhoto, no início das observações de Jorge Jesus, que sugeriu ao clube a contratação de um atacante destro. A sequência de boas atuações, e quase sempre com gol em todos os jogos, fez o técnico não voltar ao assunto. Bom também lembrar: após os títulos, Gabriel e Jesus esperaram, o quanto possível, pelo interesse de clubes europeus.

HOUVE ATÉ APELO – Antes de acertar a renovação, que protelou o quanto pôde, Gabriel fez um apelo ao presidente da Inter de Milão por uma nova chance, mas o técnico Antonio Conte deu de ombros. A informação está nas redes sociais do Flamengo. Os títulos e os gols no Brasil deram a Gabriel a esperança de poder chegar ao seu grande objetivo, o de astro internacional em um dos gigantes europeus. Mas, sem saída, teve que renovar com o Flamengo, o que também deve acontecer com Jesus, sem cotação em clube algum da Europa.

OS CAMPEÕES – Cesar, João Lucas, Gustavo Henrique, Leo Pereira e Renê; Tiago Maia (Willian Arão, 16 do segundo tempo), Diego (Everton Ribeiro, intervalo), Michael e Vitinho (Gerson, 28 do segundo tempo); Gabriel e Pedro. Com acerto, o técnico Jorge Jesus poupou a maioria dos titulares para a decisão da Recopa Sul-Americana. Rodrigo Caio e Bruno Henrique seguem em tratamento intensivo, mas sem garantia de que voltarão ao time quarta (26).

53.818 PAGANTES, um pouco menos do que o Flamengo terá na final com o Independiente del Valle. A renda da decisão da Taça Guanabara – R$2.166.600,00 – será a metade, talvez menos, do jogo de quarta(26), pelo preço dos ingressos. Quase no fim de uma carreira pautada pela correção, Marcelo de Lima Henrique teve outra boa arbitragem. Aplicou com acerto oito cartões amarelos, quatro em cada time.

A HISTORINHA – Repórter de rádio, eu estava no vestiário do Vasco quando entrou a primeira Taça Guanabara, em formato de caravela, para homenagear o quarto centenário do Rio. E entrevistei o presidente Manoel Joaquim Lopes, que soltou a pérola: “Quero dizer aos ouvintes vascaínos que estou emocionado, muito emocionado. O Vasco é o primeiro campeão do quarto centenário e os outros vão ter que esperar: outro quarto centenário só daqui a cem anos”…

Fotos: Alexandre Vidal & Paula Reis / Flamengo