Impossível deixar de lembrar: nesta sexta, 21 de junho de 2019, faz 49 anos que o Brasil ganhou a terceira Copa do Mundo, primeira das oito consecutivas que cobri como repórter, com a honra de estar no primeiro time do rádio, com Waldir Amaral, Jorge Curi, João Saldanha, Luiz Mendes, Rui Porto e Mario Vianna, nomes de eterna lembrança e que nem a velocidade do tempo apaga. Cheguei ao México duas semanas antes do desembarque da seleção, que recebi no aeroporto e acompanhei o tempo todo em Guadalajara, de onde só saiu para a grande final.

O trabalho começou com a etapa mais importante, traçada por Chirol e Coutinho, estudiosos que lideravam a equipe de especialistas em preparação fisica. Foi a dos treinos em Guanajuato, ponto mais elevado do país, próprio para a mais completa preparação para jogar na altitude. Foi lá que os jogadores ganharam gás para a decisão de 21 de junho, ao meio dia, no estádio Azteca, com seus 125 mil lugares ocupados. Do Parador Javier, em Guanajuato, a seleção sequer saiu, apesar do convite, para o show do Tamba Trio no Teatro Juarez. Era concentração mesmo.

 Juanito, mascote da Copa, com seu sombrero, um dos símbolos do México.

ATRAVESSAR A RUA – Fiquei no La Estância, pequeno hotel com vinte suítes e que só servia o café da manhã. Na pequena e rasa piscina, Mario Viannaliderava o time do polo aquático. Marcio Guedes era o capitão. Era só atravessar a Lopez Mateos, principal avenida de Guadalajara, para estar nas Suítes Caribe, pequeno hotel de dois andares, exclusivo da seleção, com uma piscina oval no meio. O contato também podia ser feito ao lado, no Clube Providência, com infraestrutura de primeiro mundo, sem que nada faltasse à seleção. O chefe da delegação era o brigadeiro Jerônimo Bastos, torcedor do Clube do Remo, que me dizia: “O Norte está presente. Você, amazonense, nacionalino; eu, paraense, remista”. No Rio, o brigadeiro era botafoguense fanático.

No hotel Suítes Caribe, em Guadalajara, base da seleção brasileira na Copa de 70, os jornalistas tinham acesso fácil. Na foto, feita em 2 de junho, o mexicano Teodoro Cano, o repórter Deni Menezes e Pelé, dois dias antes da estreia / foto: site chapalita.mx

SEM FRESCURA – O espaço das Suítes Caribe era liberado, inclusive para os torcedores mexicanos, que faziam fotos e ganhavam autógrafo. Isso fez a diferença. Os ingleses foram para o último andar do Hilton, e ninguém chegava perto deles no hotel. Os alimentos e até a água mineral vinham de Londres, duas vezes por semana. Isso foi o que mais revoltou os mexicanos, que passaram a odiá-los, enquanto aumentava a simpatia pelos brasileiros. Depois de cada vitória, quando o ônibus da seleção passava em frente aos edifícios residenciais, aplausos frenéticos, bandeiras agitadas e gritos de Brasil!!!

4 x 1 DO INÍCIO AO FIM – O gol de Petras, que se ajoelhou e se benzeu, aos 11 minutos, não assustou. A virada de 4 x 1, na estreia com a Tchecoslováquia, veio com o empate de Rivellino, em violenta cobrança de falta, aos 24, e foi concluída no segundo tempo por Pelé, e os dois gols de Jairzinho, que abria o caminho, para ser o único brasileiro de todas as Copas, a fazer gol em todos os jogos. O segundo jogo foi com a Inglaterra, sempre ao meio dia, com sol a pino e calor insuportável. Jairzinho decidiu. A primeira fase terminou com 3 x 2 na Romênia. Em seu hotel, os romenos jogavam hóspedes na piscina, inclusive senhoras de idade.

Em pé, com a flâmula da CBD, o capitão Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza, Felix, Clodoaldo, Everaldo e o preparador-fisico Admildo Chirol.Agachados, Jairzinho, Rivellino, Tostão, Pelé e Paulo Cesar. A seleção de Brasil 1 x 0 Inglaterra.

JOGO SENTIMENTAL – Nas quartas de final, um jogo de rachar o coração. Didi e Zagallo, bicampeões em 58-62, adversários em 70 em Brasil x Peru. Na hora do hino, Didi – técnico do Peru – colocou a mão no peito e cantou; só faltou chorar. Foi o quarto jogo da seleção, o segundo em que o Brasil fez quatro gols (4 x 2). Aí chegou a semifinal, Brasil x Uruguai. Era 1970, mas só se falava de 1950. O baixinho Luis Cubilla fez 1 x 0 aos 19 e Clodoaldo empatou aos 44. Na volta do intervalo, Jairzinho e Rivellino  se encarregaram da virada (3 x 1). Jorge Curi explodiu com aquela voz marcante:“Exorcizamos o fantasma. Rumo ao Tri!!!”

A POSSE DEFINITIVA – A Taça Jules Rimet – homenagem ao terceiro presidente da Fifa – era de posse definitiva para quem fosse campeão três vezes. Carlos Alberto Torres – o imortal capitão do Tri – ergueu e beijou a taça de ouro maciço, que recebeu de Gustavo Diaz Ordaz, em seu último ano de mandato como Presidente do México, na tribuna de honra do Azteca, o Colosso de Lourdes. Ordaz era do PRI – Partido Revolucionário Institucional -, que comandou o país de 1929 a 2000. Voltei ao México em 75 para os Jogos Pan-Americanos – Zizinho e Coutinho dirigiam a seleção – e o peso mexicano continuava estável. 1 dólar = 12,50 pesos. O mexicano era feliz e não sabia. Bom lembrar: anos depois, roubaram a taça da sede da CBD, na Rua da Alfândega. Roubaram e derreteram.

Zagallo orientando Marco Antonio no segundo jogo em que o lateral substituiu Everaldo, nos 4 x 2 sobre o Peru, em 14 de junho, no estádio Jalisco, em Guadalajara. Foto: Sebastião Marinho

A MARCA DE ZAGALLO – Titular em todos os jogos das Copas de 58 e 62, Zagallo assumiu a seleção após as eliminatórias de 69, em que João Saldanha foi afastado pelos generais da Revolução de 31 de março de 64. Zagallo se credenciou pelo bicampeonato de 67-68 do Botafogo, em que lançou Rogerio, Roberto, Jairzinho e Paulo Cesar, todos da seleção de 70. E conseguiu a marca histórica de ter sido, com todos os méritos, o primeiro campeão do mundo como jogador e técnico, o que o alemão Franz Beckenbauer só conseguiu vinte anos depois, em 1990, e o francês Didier Deschamps, em 2018.

FALTOU DIZER: foi a primeira das seleções brasileiras campeãs do mundo a vencer TODOS os jogos da Copa, o que só se repetiu em 2002. Ainda bem que vivi esses momentos, históricos e inesquecíveis. Como será o amanhã? Como dizia o poeta Gonzaguinha: “Responda quem souber”. Mas, as chances de completarmos cinco Copas sem erguer a taça, são cada vez maiores.