Alegra-me registrar os 61 anos de Leandro, que vi como o melhor lateral do Flamengo e um dos maiores do mundo, com seu futebol-arte, jogado com mestria e alta categoria, na seleção que Telê Santana dirigiu na Copa de 82. O resumo de um dos melhores técnicos da história diz tudo: “Vi muitos bons, mas Leandro foi o melhor”. Na seleção, Leandro participou de 29 jogos, de 81 a 86, sempre com regularidade impressionante.

O INÍCIO – Nascido em Cabo Frio, em 17 de março de 59, José Leandro de Souza Ferreira mudou-se para a capital aos 17 anos, em 76, para fazer o curso de Educação Física, mas os planos mudaram após aprovado no segundo teste no Flamengo, que o lançou no juvenil em 78 e logo a seguir no time titular, em amistoso com o América, em Niterói. A estreia oficial foi no 1 x 1 com o Palmeiras, em 5 de julho, no Maracanã, pelo Campeonato Brasileiro.

O PRIMEIRO – Com a contusão de Júnior, o uruguaio Ramirez foi deslocado para a lateral-esquerda e Leandro entrou na direita, escalado pelo ex-lateral Jouber, técnico campeão carioca de 74. Leandro saiu-se muito bem na estreia, aos 19 anos, marcando o ponta Nei, veloz e habilidoso, dos melhores do time do Palmeiras. Claudio Coutinho voltou ao comando e manteve Leandro, ainda com idade de juvenil, que participou de seis jogos do título carioca de 78.

O JOELHO – Leandro tornou-se profissional em 79, ano em que fez a primeira cirurgia, em maio, no joelho, problema congênito que o acompanhou, e o atrapalhou muito, ao longo da carreira. Só voltou em setembro, com tempo para cinco jogos, três como titular, no Campeonato Carioca, em que foi bicampeão (78-79), e marcou seu primeiro gol, o último dos 3 x 0 na Portuguesa, no Maracanã.

O EXAME – Leandro foi indicado ao Internacional pelo técnico Ênio Andrade, em março de 80, mas não passou no exame médico. Voltou ao Flamengo, mas não pôde ser inscrito no time campeão Campeonato Brasileiro por estar sem contrato. Em 81 o lateral baiano Toninho foi para a Arábia Saudita, mas uma fratura no pé tirou a nova chance de Leandro, que só entrou no Fla-Flu do returno do campeonato.

O DESASTRE – Leandro entrou bem no Campeonato Brasileiro de 81, mas no sábado de Carnaval (28 de fevereiro), sofreu desastre de carro em Cabo Frio. Só voltou em maio e ganhou a posição em torneio no Sul da Itália, com atuações destacadas nos 5 x 0 no Napoli e nos 5 x 1 no Avellino. Leandro não participou das eliminatórias e foi convocado para o último amistoso de 81, ganhando a posição de Edevaldo, do Fluminense, campeão carioca de 80.

A SELEÇÃO – Leandro estreou no último amistoso de 81 e fez o terceiro gol, depois de Roberto Dinamite e Zico, nos 3 x 0 na Bulgária, em 28 de outubro, no estádio Olímpico do Grêmio. A primeira seleção de que Leandro participou: Waldir Peres (Paulo Sergio), Leandro, Oscar, Luizinho e Júnior; Cerezo (Rocha), Sócrates e Zico; Paulo Isidoro, Roberto Dinamite e Mario Sergio. Quatro já morreram: Waldir Peres, Rocha, Sócrates e Mario Sergio.

A LIBERTADORES – No jogo extra da final da Libertadores de 81 com o Cobreloa do Chile, a primeira que o Flamengo ganhou, o técnico Carpegiani escalou Leandro no meio, com Andrade e Zico, que fez os dois gols (2 x 0). Adílio jogou na ponta, porque Lico teve a pálpebra perfurada por uma pedra atirada por um reserva do Cobreloa, e Adílio conseguiu se recuperar depois de ter tido o supercílio aberto por uma cotovelada de Mario Soto.

ESFORÇO DOBRADO – O Flamengo teve que dobrar o esforço na volta do intervalo, para ganhar a Libertadores, porque Andrade foi expulso quase no fim do primeiro tempo, ao revidar agressão covarde de Jimenez em Júnior. Aí apareceu ainda mais a atuação de Leandro, marcando com precisão e criando contra-ataques que deixavam a defesa do Cobreloa em polvorosa. O time todo muito bem, mas Leandro, Júnior, Adilio e Zico, em destaque.

O MUNDIAL – No inesquecível belo domingo de sol de 13 de dezembro de 81, fiz a cobertura, no antigo Estádio Nacional de Tóquio, de uma exibição notável do Flamengo, com 3 x 0 ainda no primeiro tempo, liquidando o Liverpool, campeão da Europa, com time bem superior ao atual. Entre Zico e Júnior, Leandro foi o segundo a beijar a taça, que o capitão Zico ergueu, alegre, feliz e emocionado.

DOIS SHOWS – Leandro voltou a ser destaque nos dois shows seguintes do Flamengo, campeão brasileiro de 82, com 1 x 0 no Grêmio, no estádio Olímpico, em Porto Alegre, e campeão brasileiro de 83, com 3 x 0 no Santos, em jogo de recorde de público de toda a história do Campeonato Brasileiro: 155.523 pagantes, no domingo, 29/5/83, no Maracanã da saudade. Leandro fez o terceiro, desviando de cabeça mais uma primorosa cobrança de falta de Zico.

O MAIS BELO – Nenhum dos 14 gols que Leandro marcou em 415 jogos pelo Flamengo foi mais bonito que o da noite de 11 de dezembro de 1985, no Maracanã, o do empate (1 x 1) com o Fluminense, aos 44 do segundo tempo, pelo Campeonato Carioca. Pouco adiante do grande círculo, ele chutou forte com o pé direito, a bola descaiu no travessão, bateu nas costas do goleiro Paulo Victor e entrou. Um delírio rubro-negro!

O ÚLTIMO – Bom lembrar: o gol mais bonito de Leandro foi o último narrado pelo rubro-negro Jorge Curi – locutor padrão do rádio brasileiro, com sua voz clara e forte, o melhor com quem trabalhei ao longo de tantos anos , que morreria no mês seguinte, aos 65 anos, em 23 de dezembro de 85, ao voltar de carro para Caxambu, no Sul de Minas, onde nasceu em 25 de fevereiro de 1920.