Tive a alegria de cumprimentar pessoalmente Evaristo de Macedo, um dos grandes atacantes do futebol mundial dos anos 50-60, ídolo no Flamengo, Real Madrid e Barcelona, que comemora 86 anos neste sábado (22), cercado do carinho da família, em seu confortável apartamento no edifício Portinari, de frente para o mar, na área supervalorizada de Ipanema. Barcelona e Real Madrid postaram mensagens de congratulações em suas redes sociais, mostradas pelo segundo filho, Luis Augusto, o Pepe, que registrou com fotos a nossa conversa.

Evaristo detém o recorde de 62 anos de único a fazer cinco gols em um jogo pela seleção brasileira, nos 9 x 0 sobre a Colômbia, na noite de 23 de março de 1957, diante de 50 mil torcedores, no Estádio Nacional de Lima, pela Copa América, na época tratada como Campeonato Sul-Americano. Foi o ano da estreia de Pelé na seleção e nem o Rei conseguiu igualar o recorde do carioca do Grajaú, revelado no Madureira, de onde também saiu outro notável, o bicampeão mundial Didi.

OS CINCO GOLS – Como foi possível conseguir o recorde de cinco gols em um jogo? Evaristo recorda: “A Colômbia tinha boa seleção e vinha de duas boas vitórias. Nós nos preparamos para evitar a surpresa. Eles perderam um jogador, que saiu contundido logo no início, e naquela época não havia substituição. Isso fez a diferença”. Bom lembrar: além dos cinco gols de Evaristo, Didi fez dois, Zizinho e Pepe completaram os 9 x 0.

DOIS MESTRES – Com que técnico você mais aprendeu? Evaristo fala do paraguaio Fleitas Solich – seu técnico no primeiro tri do Flamengo no Maracanã, em 53-54-55 – e do argentino Helenio Herrera, que o dirigiu no Barcelona, bicampeão espanhol 58-59 e 59-60, ressaltando: “O diferencial deles é que estudavam muito o adversário e preparava o time para explorar as deficiências. Detalhistas ao extremo, faziam observações minuciosas. Aprendi muito com eles”.

– Por que, Evaristo, nem sempre o bom jogador é bom técnico? “Uma coisa é saber fazer; outra coisa é saber ensinar. O temperamento também nem sempre ajuda. Alguns querem que o jogador faça o que ele fazia tão bem e o jogador nem sempre está preparado para isso. É meio complicado”.

– O que mais mudou no futebol desde o teu tempo de jogador? “O cartão. Na minha época, batiam muito mais do que hoje e o árbitros tinham na ideia que futebol era pra homem. Medroso não jogava. Alguns jogadores reclamavam de entrada dura, às vezes desleal, e o árbitro dizia: “Levanta. Futebol é pra homem”.

AS COMPARAÇÕES – Qual a principal diferença entre o futebol sul-americano e o europeu? “A condição financeira. Os europeus têm dinheiro sobrando e compram quem querem, principalmente entre eles, pela grande rivalidade. Bons patrocinadores, venda antecipada de ingresso para todas as competições. Isso faz a diferença”.

– O Brasil foi campeão em 70 e só voltou a ser em 94. Na história mais recente, o Brasil ganhou a última em 2002. Você acha que em 2022 pode completar cinco Copas sem ser campeão? Evaristo admite: “Pela impressão que deixou nas duas últimas, muito ruim, é possível, sim. Pelo menos não estamos vendo sinal de recuperação”. 

– Como analisa a manutenção do técnico na seleção? Evaristo discorda: “Você acabou de lembrar que só dois dirigiram a seleção em duas Copas consecutivas, não é isso? Sim. O Zagallo em 70 e 74, e o Telê Santana em 82 e 86. “Está certo, mas o Zagallo foi campeão em 70 e não ganhou em 74. E o Telê, apesar de excelente técnico também, não ganhou nas duas vezes. Vejo como um erro a permanência de um técnico em duas Copas seguidas”.

CASOS RECENTES – 1 – Douglas Costa, da Juventus, cuspiu na cara de um italiano. 2 – Neymar deu um soco na cara de um torcedor do PSG. 3 – Paquetá, com tão pouco tempo na Itália, deu um tapa na mão do árbitro. E aí, como fica a imagem do brasileiro? Evaristo resume em resposta simples: “No futebol, a revolta provoca desinteresse ou violência”.

– O Palmeiras está disparando no Brasileirão: cinco pontos à frente do vice-lider Santos e oito a mais que o Flamengo, terceiro. E aí?  Evaristo responde: “O futebol perdeu muito do seu objetivo para alguns. Enquanto outros não se prepararam, o Palmeiras vai sobrando na turma. Bom suporte financeiro, boa organização, bom técnico, trabalha com previsão, contrata bem e os resultados não podem ser outros”.

– É possível manter essa liderança por muito tempo? “Claro que sim. Basta saber manter o bom trabalho que vem sendo feito e continuar com muita aplicação. Os outros vão ter que correr para chegar perto. Como você disse, o Palmeiras está sobrando na turma. Não perde sei lá há quantos jogos, é o time que mais faz gol e menos sofre. A liderança é o reflexo de tudo isso”.

Evaristo de Macedo e Deni Menezes conversam no salão do apartamento de Ipanema sobre vários temas, antigos e atuais do futebol. As fotos foram feitas por Luis Augusto, o Pepe, único carioca dos três filhos de Evaristo.

– E o VAR? Evaristo balança a cabeça: “Sou contra. Tira totalmente a autoridade do árbitro. O futebol sempre se caracterizou pelas discussões: foi pênalti, não foi pênalti. A bola entrou, a bola não entrou. Mas, como o futebol passou a ser dirigido por gente que nunca chutou uma bola”…- E o futebol feminino, Evaristo, com a Copa do Mundo, Brasil decide com a França, estádios cheios? “É uma das coisas da modernidade”.

PELÉ FOI MESMO O MELHOR? Evaristo diz não ter dúvida alguma: “O futebol, como todos nós sabemos, não é um esporte individual, mas de equipe. Mas, dentro do seu posicionamento, pela inteligência, rapidez de raciocínio, pela velocidade e pela ampla visão, não há dúvida de que o Pelé foi o melhor e de que ainda não apareceu outro. E vai ser difícil aparecer”.-De todas as alegrias que você viveu, marcando gols, ganhando títulos e jogando sempre nos melhores times, existe uma que você diga: essa foi a melhor? “Não. Não existe. A vitória e a alegria não são possíveis de serem medidas e comparadas. A alegria no futebol pode ser comparada a um filho: um casal tem três, cinco, dez filhos. Todos são iguais, não há um melhor que o outro”.

– Injustiça. Você acha que o futebol às vezes é injusto, como por exemplo na final da Copa de 50, que o Brasil jogava em casa, Maracanã com mais de 200 mil pessoas, pelo empate, fez 1 x 0 no início do segundo tempo, levou a virada e perdeu a Copa? “Não. Não foi injustiça. Eu estava na arquibancada, atrás da trave onde o Gigghia fez o gol da virada. Um lance igual ao primeiro gol, em que ele cruzou e o Schiaffino empatou. Quando ele fez o segundo gol, com certeza queria cruzar de novo, e a bola entrou.”

-Quem foi o melhor jogador que você viu com a camisa do Flamengo? “Da minha época, o melhor foi o Rubens. Nessa época o meio de campo só tinha dois e ele dava show, de técnica e de condicionamento físico. Batia pênalti e falta com perfeição”. Era aquele ataque fascinante? Joel, Rubens, Índio, Evaristo e Esquerdinha, e depois o Zagallo? “Exatamente. Era o que o pessoal da época chamava de Rolo Compressor porque passava por cima dos adversários e atropelava todos eles”.

A FAMÍLIA EVARISTO – Evaristo de Macedo tem o mesmo nome do pai, que não acrescentou Filho, como alguns pensam, falam e escrevem. Evaristo é só Evaristo de Macedo, casado com Norma, mãe, aí sim, do Evaristo de Macedo Filho – o mais velho -, nascido em Barcelona. O segundo é Luis Augusto, o Pepe, natural do Rio, e a terceira é Maria Mercedes, a Pitusa, nome de uma boneca espanhola, que lhe valeu o apelido. O primeiro bisneto de Evaristo vai chegar em fevereiro, filho de sua neta Ana Carolina, que tornará avô o papai Pepe.