Maio terminou com a notícia da morte de Januário de Oliveira, entristecendo os que o acompanharam em muitas transmissões, no rádio e na televisão, e os que tiveram o prazer e a alegria de trabalhar com ele, entre os quais me incluo. Nós nos conhecemos no início dos anos 70, quando o futebol do Fluminense ainda era nas Laranjeiras, ele repórter da Rádio Mauá; eu, da Rádio Nacional, onde atuamos juntos, a partir de 77, ele já então narrador.

“TAÍ O QUE VOCÊ QUERIA” – Um dos muitos bordões marcantes de Januário de Oliveira foi criado no estádio Ítalo del Cima, em 1991, época das boas equipes do Campo Grande, que tinha, entre outros, Roberto Dinamite, Claudio Adão, Eloi e Zinho, e empatou (1 x 1) com o Flamengo. O jogo sofreu atraso de quase meia hora, e quando o árbitro Sergio Cristiano autorizou o início, Januário mandou: “Taí o que você queria”.

“TÁ LÁ UM CORPO ESTENDIDO NO CHÃO” – Foi também em 1991, no último jogo do turno do campeonato – Flamengo 2 x 1 Botafogo -, que Januário teve a ideia de outro bordão, que caiu no gosto da galera. Aos 28 do segundo tempo, Valdeir, que corria muito e já havia feito gol, poderia empatar de novo. O zagueiro Junior Baiano, duro nas faltas, deu um carrinho e derrubou o atacante: “Tá lá um corpo estendido no chão” – disse Januário, aumentando o tom de voz.

“THE FLASH” E “O ANJO LOURO” – Um ano antes, no bicampeonato do Botafogo no Maracanã, em 90, Valdeir já havia inspirado Januário, que criou para o atacante o apelido de “The Flash” por sua incrível velocidade. Januário gostava de filmes antigos, que geralmente assistia de madrugada, e foi “O Anjo Azul”, sucesso da atriz alemã Marlene Dietrich, nos 30, que o inspirou a chamar Savio, ponta do Flamengo, de “O Anjo Louro”, assim que se firmou titular, em 95.

“SUPER ÉZIO” – Os tricolores vibravam quando Januário de Oliveira chamava o atacante de Super Ézio, que brilhou com 118 gols em 295 jogos, campeão da Taça Guanabara 91 e 93, e campeão carioca 95. A cada gol dele, o narrador dizia: “Cruel, muito cruel”, “Sinistro, muito sinistro”. Em 79, quando o atacante paulista Parraro estreou no Fluminense e fez três gols nos 5 x 0 no Bangu, Januário vibrou após o terceiro gol: “Parraro, Parraro, Parrarinho”.

BOM LEMBRAR – Januário de Oliveira, além de narrador, foi também excelente apresentador de televisão. Comandou o Esporte Visão, nas noites de domingo, na então TVE, hoje TV Brasil, com debates inteligentes entre analistas de alto nível, tais como Luis Mendes, Ruy Porto, Sergio Noronha, e a participação do bom repórter Sergio du Bocage. Nas transmissões, os repórteres José Luis Furtado e Sebastião Pereira, nosso colega também na Rádio Nacional.

HOMENAGEM – Todos os clubes do Rio usaram suas redes sociais para homenagear Januário de Oliveira como um dos grandes narradores da história do rádio e da televisão. O Fluminense, clube do coração, respeitará sua memória com um minuto de silêncio, antes do jogo desta quarta (2), com o Bragantino, no Maracanã, pela terceira fase da Copa do Brasil. Cinco dias mais novo do que eu, Januário nasceu em 19 de setembro de 1939, no Alegrete, a 509 km de Porto Alegre.

Que Deus, do alto da sua infinita bondade, dê muita luz ao espírito de Januário Soares de Oliveira.

Foto: Fabiano de Oliveira