Quando a bola rolar domingo (7), às cinco da tarde, Brasil e Peru estarão iniciando o jogo 45 dos confrontos de suas seleções, desde que se enfrentaram, pela primeira vez, em 1916, então como Campeonato Sul-Americano. Duas semanas depois da goleada (5 x 0) na fase de grupos, o Brasil é favorito absoluto na final da Copa América, ainda que o Peru tenha eliminado o bicampeão Chile com sua melhor exibição, em 3 x 0 que não deixou qualquer dúvida, na noite de ontem (3), na Arena Grêmio.

A IMPORTÂNCIA – Nenhum Brasil x Peru se sobrepõe à importância do jogo da tarde do domingo, 21 de abril de 1957, diante de 120 mil pagantes, no Maracanã. Foi o que valeu a vaga para a primeira Copa que o Brasil ganhou em 1958, abrindo caminho para se tornar o futebol com mais títulos da história dos 21 Mundiais. Na época, as eliminatórias eram com três seleções em cada um dos três grupos. A Venezuela desistiu e a vaga ficou só entre Brasil e Peru, em dois jogos, com o terceiro jogo para o desempate.

EMPATE EM LIMA – No primeiro jogo, no Estádio Nacional de Lima, 1 x 1, com Alberto Terry fazendo 1 x 0 Peru aos 37 do primeiro tempo, e Índio empatando logo aos 3 minutos depois do intervalo. No segundo jogo, em tarde de gala, com 120 mil pagantes, o Maracanã se assustou com a bola na trave do zagueiro Carlos Lazon, e quase comemorou quando Garrincha acertou o travessão, antes dos 20 minutos. Era grande a vontade das duas seleções de ganhar e de ir para a Copa de 58 na Suécia.

A FOLHA SECA – O gol da classificação foi aos 38 minutos. O meia Luis Calderon derrubou Índio uns cinco metros antes da meia lua, bem de frente para o gol, à esquerda da Tribuna de Honra. Didi, então aos 28 anos, pegou a bola, curvou-se para colocá-la no lugar certo da cobrança, olhou a barreira, formada por cinco, e não ficou mais que dois metros atrás da bola. O goleiro Rafael Asca optou pelo lado direito. Didi bateu de trivela, por cima da barreira, e Asca ficou parado, vendo a bola descair e entrar do seu lado esquerdo. O futuro bicampeão mundial (58-62) criou a Folha Seca, explicando que a bola caía como uma folha cai da árvore, em curvas.

OITO NA COPA – O gaúcho Oswaldo Brandão, da linha de frente dos técnicos da época, manteve no Maracanã a formação do 1 x 1 do primeiro jogo no Peru: Gylmar (Corinthians), Djalma Santos (Portuguesa), Bellini (Vasco), Zózimo (Bangu) e Nilton Santos (Botafogo); Roberto Belangero (Corinthians) eDidi (Botafogo); Joel (Flamengo), Evaristo (Flamengo), Índio (Flamengo) e Garrincha (Botafogo). Dos 11, só Roberto Belangero, Evaristo, que saiu para o Real Madrid, e Índio não foram à Copa. 

BOM LEMBRAR – Pelé só foi convocado pouco antes da Copa. Garrincha só ganhou status após a Copa, desde que entrou, junto com Pelé, no terceiro jogo com a então União Soviética, hoje Rússia. Garrincha precisou se adaptar à esquerda porque Joel era o melhor ponta-direita, desde que formou, com Rubens, Evaristo, Índio e Esquerdinha (depois Zagallo), o Rolo Compressor, como o ataque do Flamengo foi chamado, após marcar 228 gols em 84 jogos, no primeiro tricampeonato (53-54-55) do Maracanã.

FENÔMENO IGUAL – Para que os mais antigos revivam e os mais novos saibam, houve alguns exemplos de adaptação de jogadores em posições em que não atuavam, mas que, por serem excepcionais, não poderiam ficar fora do time ou da seleção. Em meados dos anos 40, havia excesso de excelentes atacantes. Na Copa Rio Branco de 1946, no Uruguai, o técnico Flávio Costa escalou Heleno de Freitas de centroavante e deslocou Ademir Menezes para a ponta-esquerda. Os dois eram muito bons goleadores, não podiam ficar fora da seleção. Aí o técnico formou o ataque, na época com cinco: Tesourinha, Zizinho, Heleno, Jair e Ademir.

ZAGALLO CONTORNOU problema igual na Copa de 70, recuando Wilson Piazza, que era volante no Cruzeiro, para a zaga, ao lado de Brito, e abrindo espaço no meio para Rivellino. Ele não poderia deixar de fora Clodoaldo nem Gerson, que abusavam do direito de jogar muito. O técnico também soube adaptar Jairzinho à ponta-direita, com deslocamentos frequentes para o meio, como no 1 x 0 sobre a Inglaterra em que fez o gol, em jogo em que Paulo Cezar Lima subsituiu Gerson e teve a mais notável atuação tática da Copa. Complicado, em 2019, é saber que Willian é desfalque e Filipe Luis é dúvida para a decisão de domingo…