O salto do capixaba Arlindo, comemorando o histórico primeiro gol do Estádio Azteca, que marcou logo aos dez minutos do empate (2 x 2) com o Torino, na tarde de 29 de maio de 1966.

O meia brasileiro Arlindo, sucessor do bicampeão mundial Didi, no time bicampeão carioca de 1962 do Botafogo, é nome de destaque na história do Estádio Azteca, da Cidade do México, recordista de jogos (19) de Copas do Mundo e primeiro a receber duas finais, ganhas pelos maiores jogadores do século 20: Pelé, em 1970, e Maradona, em 1986. Hoje, 29 de maio de 2020, faz 54 anos que o capixaba Arlindo, aos 26 anos, marcou o primeiro gol no Azteca, aos 10 minutos, no amistoso (2 x 2) com o Torino.

Na sede do Club América, Arlindo em momento de descontração. No banco, as iniciais do clube e o desenho do mapa do México, onde se tornou ídolo, lembrado sempre com muito carinho.

BUSTO ESPECIAL – Arlindo tornou-se ídolo do Club América, dos mais ricos do mundo, do empresário Guillermo Cañedo, que se associou ao magnata Emílio Azcárraga, dono da Televisa e do próprio Azteca. De amador do Villa Rio FC, de Mesquita, município da região metropolitana do Rio, não foi aprovado nos testes do Bangu e Madureira. Bom observador, o técnico Neca, que revelou tantos craques, o levou ao Botafogo e fez dele tricampeão juvenil 61-62-63, e já profissional, campeão do Rio-São Paulo de 64. 

PRESTÍGIO – Pelo gol histórico, Arlindo ganhou busto especial em área nobre do Azteca. O tempo não apaga o prestígio dele, como testemunhei em várias viagens ao México. Em uma delas, fui conhecer a concentração do América, usada pela Argentina na Copa de 86, a convite do técnico bicampeão Jorge Vieira, que me mostrou o quarto especial de Maradona. Técnico do último título carioca do América, em 60, Jorge me dizia: “O Arlindo deixou o nome gravado, bem gravado, aqui no México”

PAN-AMERICANO – Na época do 4-2-4, o ataque da seleção brasileira nos Jogos Pan-Americanos de 1963, em São Paulo, teve Jairzinho, Arlindo, Airton e Othon Valentim. Só Airton não era do Botafogo. O técnico Antoninho, outro descobridor de talentos, lançou nesse torneio Carlos Alberto Torres, revelado no Fluminense, vice-campeão carioca de 63 e campeão de 64, e futuro capitão dos tricampeões do mundo. Arlindo deu sete passes para Airton, do Flamengo, fazer sete gols nos 10 x 0 nos Estados Unidos, em uma das goleadas históricas no Parque São Jorge, antigo estádio do Corinthians.

BOM DIZER – Na festa de inauguração do Estádio Azteca, em 29 de maio de 1966, o segundo gol do América foi do baiano Zagueídolo eterno do Corinthians – 242 jogos, 127 gols –, comprado em 1961. Ele viveu anos no México, e seu filho, Luis Roberto Alves- Zaguinho – é o maior artilheiro (159 gols) do estádio. Conheci Zaguinho em julho de 1993, na final da Copa América (Argentina 2 x 1 México), em Guaiaquil, Equador, onde me ofereceu a camisa 11 da seleção mexicana.

Pedro Ramirez Vazquez, arquiteto formado na Universidade Nacional Autônoma do México, tinha só 23 anos quando fez o projeto do Azteca. Por coincidência, nasceu e morreu na capital mexicana em 16 de abril, de 1919 e 2013. 

SETE ESTÁDIOS – O projeto do Estádio Azteca foi de Pedro Ramirez Vazquez, arquiteto do Museu Nacional de Antropologia da Cidade do México. Ele e a equipe  dispuseram de quatro anos de estudos e observações para concluir a obra, também chamada Colosso de Santa Úrsula, bairro que hoje movimenta alguns dos centros comerciais mais frequentados e um dos maiores parques temáticos do mundo. Vazquez visitou o Maracanã e mais seis estádios em Roma, Madrid, Paris, Londres, Moscou e Varsóvia, “para fazer o Azteca completo e sem defeito, com visão plena de qualquer ângulo, acesso e estacionamento fácil”.

99 ANOS – Foram utilizados quatro mil metros cúbicos de concreto, com oitocentos operários, dia e noite, no trabalho da construção. Um concurso foi instituído para a escolha do nome do estádio, e o vencedor, Antonio Torres, de Leon, cidade da região central do país e capital do estado de Guanajuato, ganhou duas cadeiras especiais com validade de 99 anos! Bom lembrar: Guanajuato é o ponto mais alto do México – 1.900 metros -, onde a seleção brasileira fez parte do treinamento na Copa de 70. Azteca foi escolhido em homenagem à cultura indígena, tão admirada e valorizada pelo povo mexicano.

Na placa de inauguração do Azteca, em destaque os nomes de Gustavo Diaz Ordaz, presidente da República, e Stanley Rous, presidente da FIFA de 1961 a 1974, quando foi sucedido por João Havelange, único brasileiro que presidiu a FIFA (1974 – 1998).
Orgulho dos mexicanos, o Estádio Azteca foi o primeiro a receber duas Copas do Mundo, com o recorde de 19 jogos e os dois maiores jogadores do século 20 como campeões: Pelé em 70, Maradona em 86.

RECORDE DOS RECORDES – O amistoso México 0 x 2 Brasilgols de Jairzinho, em 7 de julho de 1968, bateu o recorde dos recordes de público do Azteca: 119.853 pagantes. Seleção: Félix, Carlos Alberto, Brito, Joel e Rildo; Gerson e Rivellino; Natal (Paulo Borges), Tostão (Roberto Miranda), Jairzinho e Edu.

Técnico – Aimoré Moreira. Depois, na ordem, os outros jogos.

1 – Argentina 3 x 2 Inglaterra – 114.580 – 22 de junho – Copa de 70

2 – México 1 x 0 Bélgica – 108.192 – 11 de junho,  Copa 70.

3 – Brasil 4 x 1 Itália – 107.412 – 21 de junho, final Copa 70.

4 – México 0 x 0 União Soviética – 107.160 – 31 de maio, abertura Copa 70.

5 – Alemanha 1 x 0 Uruguai – 104.403 – 17 de junho, semifinal Copa 70.

6 – México 4 x 0 El Salvador – 103.058 – 7 de junho, Copa 70.

7 – Itália 4 x 3 Alemanha – 102.444 – 20 de junho, terceiro lugar Copa 70.

O RECORDE de público dos Jogos Olímpicos também foi estabelecido no Azteca, em 24/10/68, México 0 x 2 Japão, decisão do terceiro lugar, com 105.319 torcedores. O estádio recebeu 10 jogos do torneio olímpico de futebol e na final, em 26/10/68, a Hungria ganhou o ouro ao golear (4 x 1) a Bulgária.

MÃO DE DEUS – 114.580 torcedores viram Maradona fazer dois gols em quatro minutos, no segundo tempo da vitória (2 x 1) sobre a Inglaterra, nas quartas de final, em 22/6/86. O primeiro, aos seis, com o pé do capeta, driblando seis marcadores. O segundo, aos dez, com a Mão de Deus, que só o árbitro Ali Bin Nasser, da Tunísia, não viu. O gol mereceu placa no Azteca.

JOGO DO SÉCULO – Único jogo das Copas com cinco gols na prorrogação, Itália 4 x 3 Alemanha, na semifinal de 86, em 17 de junho, foi considerado pelos mexicanos como Jogo do Século e também ganhou placa no Azteca. O jogo em que Beckenbauer fraturou a clavícula e usou tipóia para prender o braço e poder jogar até o fim. 

VELÓRIO DE CHAVES – A alegria dos jogos deu lugar à tristeza, em 29 de novembro de 2014, quando milhares de fãs foram ao velório de Roberto Gomez Bolaños, de tanto sucesso como Chaves e Chapolin na televisão, muito vistos no Brasil, através do SBTEra torcedor do América e deixou fortuna de 1 bilhão e 700 milhões de dólares!

LIBERTADORES – Entre 1998 e 2016, os times do México participaram, como convidados, da Copa Libertadores. Em sua única final, em 20/6/2001, no Azteca, o Cruz Azul perdeu (1 x 0) para o Boca, que ganhou o título pela quarta vez – 3 x 1 nos pênaltis -, depois de perder (1 x 0) o jogo de volta em Buenos Aires. Há placa comemorativa no Azteca, onde houve 40 jogos do torneio. 

MAIOR GOLEADA – Foi no Azteca, em 17 de outubro de 1975, na sétima edição dos Jogos Pan-Americanos, que a seleção brasileira aplicou a maior goleada de sua história:14 x 0 na Nicarágua! Quatro gols de Luis Alberto, dois gols de Santos, Erivelto e do futuro técnico Marcelo Oliveira, e um gol de Rosemiro, Eudes, Chico Fraga e Batista. O técnico era Zizinho e o Brasil dividiu a medalha de ouro com o México: 1 x 1, gols de Claudio Adão e Tapia. Faltou energia por mais de uma hora e o jogo foi encerrado.

A seleção-base foi Carlos (Ponte Preta), Mauro (Guarani), Tecão (São Paulo), Edinho (Fluminense) e Chico Fraga (Internacional); Batista (Internacional) e Eudes (Portuguesa); Rosemiro (Remo), Claudio Adão (Santos), Luis Alberto (Fluminense) e Santos (Santa Cruz). Destacaram-se Carlos, Edinho e Batista, que estiveram depois na seleção principal em Copas do Mundo. Zizinho, melhor jogador da Copa do Mundo de 50, ganhou o prêmio de melhor técnico.

Foto: clubamerica.com.mx, ArchDaily, Bongarts/VEJA, Marco Ugarte, e voyagevip.com.br