Entristece-me, e não é pouco, registrar a perda de Carlos José, que conheci em meados dos anos 60, em suas visitas à rádio, onde era entrevistado pelos comunicadores, que sempre prestigiavam seus lançamentos de sucesso. Ele gostava tanto da música quanto do futebol e o Expresso da Vitória fez dele um vascaíno apaixonado pelos craques e pelos títulos.

O INÍCIO – Carlos José era mais carioca do que paulistano, ao chegar ao Rio aos cinco anos, em 1939. Foi na Faculdade Nacional de Direito que começou a se interessar pelo canto, ao organizar um grupo de música, em que se destacariam Silvinha Teles, primeira namorada de João Gilberto, e uma das melhores intérpretes de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, como na canção “A Felicidade”, e Geraldo Vandré, que compôs Disparada, sucesso na voz de Jair Rodrigues.

SUCESSOS – Carlos José teve sempre muita sensibilidade na escolha das composições que gravou, dando preferência às letras de amor, tocavam os corações femininos. Com sua voz doce e suave, tinha interpretação segura e que sempre agradava. Regravou sucessos de quando ainda nem era nascido, tipo Caminhemos, do notável Herivelto Martins, primeiro marido da extraordinária cantora Dalva de Oliveira, com quem teve Pery Ribeiro.

REVELAÇÃO – Aos 23 anos, depois de estrear em Um instante, maestro, programa que Flavio Cavalcanti apresentava na extinta TV Tupi, na Urca, Zona Sul do Rio, Carlos José foi escolhido como a grande revelação musical de 1957. No mesmo ano, gravou o primeiro 78 rotações, disco de só duas músicas, passando a seguir ao LP, de vinil, com seis músicas de cada lado.

LUIS VIEIRA 1928 – 2020 – notável compositor e cantor, autor de Menino Passarinho, seu maior sucesso, ouviu Carlos José interpretando samba-canção e fez questão que gravasse Guarania da Saudade, outro de seus grandes sucessos, como também foram Quero beijar-te as mãos, de Lourival Faissal, e Esmeralda, composta pelo próprio Carlos José.

O VASCAÍNO – Carlos José e eu fomos vizinhos em Ipanema, ele no 592, eu no 447 da Rua Visconde de Pirajá, onde conversamos muito sobre futebol. Tornou-se vascaíno pelo primeiro título que viu o time ganhar na final com o América, já em janeiro de 1951, porque o Campeonato Carioca atrasou, devido à Copa de 1950.

CRAQUES – Carlos José tinha conceito igual ao meu: só craques e títulos aumentam torcida. E ele vibrava ao falar das defesas de Barbosa, goleiro notável; da elegância do (na época) centro-médio Danilo Alvim, e das arrancadas e gols maravilhosos do genial Ademir Menezes, primeiro artilheiro do Maracanã e até hoje o maior artilheiro do Brasil em uma Copa.

CARLOS JOSÉ, em um dos nossos papos, sabendo que sou tricolor, me disse“Gostava de Vasco x Fluminense porque tinha uma disputa sensacional: Ademir x Castilho. O goleiro do teu time era espetacular. Foi o único que eu vi defender pênalti do Ademir e depois do Rubens, do Flamengo, outro grande batedor, e do Didi, que jogou com ele no Fluminense.

CARLOS JOSÉ Ramos dos Santos também era virginiano de setembro, igual a mim, ele nascido em São Paulo, dia 22, e eu em Manaus, dia 14. Partiu para o plano superior, ontem (9), aos 85 anos. Ficará a lembrança de um dos bons amigos que fiz no Rio e a certeza de que, do alto da sua infinita bondade, Deus dará muita luz ao seu espírito, o que também pedirei em minhas orações de todas as noites.

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