“O Fla-Flu não tem começo. O Fla-Flu não tem fim” – dizia Nelson Rodrigues, garantindo que a mística do único clássico, considerado desde 2012 patrimônio imaterial do Rio de Janeiro, começou logo no primeiro que disputaram, em 7 de julho de 1912, gerado no ressentimento. Do Fluminense, porque seus nove jogadores desertores criaram o futebol no Flamengo, até então só um clube de remadores. E do Flamengo, porque o Fluminense, mesmo desfalcado, ganhou o primeiro clássico (3 x 2).

TALENTOSO, GENIAL, Nelson Rodrigues foi também criador da frase antológica”O Fla-Flu começou 40 minutos antes do nada”, e da comparação do clássico com Os Irmãos Karamazov, escrita em 1879 pelo russo Fiódor Dostoiévski, e definida como “a maior obra da história” pelo austríaco Sigmund Freud, neurologista e pai da psicanálise, ao analisar o embate familiar entre pai e filho. Assim nasceu o clássico das multidões, outra inspiração de Mario Filho para a criar Fla-Flu, abreviatura copiada Brasil afora.

VIZINHOS – De 1910 a 1930 a rivalidade do Fla-Flu aumentou porque seus campos eram bem próximos. O do Flamengo, na Rua Paysandu; o do Fluminense, na Rua Guanabara, atual Pinheiro Machado, onde o atacante Edward Calvert, do Fluminense, marcou o primeiro gol, logo no primeiro minuto. De falta, o irmão dele, James Calvert, fez o segundo, e o Fluminense ganhou o primeiro Fla-Flu, na tarde de 7 de julho de 1912. Era tudo o que os desertores rubro-negros não queriam.

HEGEMONIA – Fluminense e Flamengo mantiveram cinco anos de hegemonia. O Fluminense, primeiro tricampeão – 1917-18-19 – e o Flamengo, bi em 1920-21. Em 1924, o Fluminense foi campeão sem vencer o Flamengo (1 x 1 e 2 x 4). Em 1925, o Flamengo foi campeão sem vencer o Fluminense (1 x 1 e 1 x 3). Em 1925, a seleção do Rio de Janeiro no Campeonato Brasileiro só teve jogadores do Flamengo e do Fluminense. Foi também uma ideia de Mario Filho para esfriar os ânimos.

OS PÊNALTIS – Fla-Flu,22 de outubro de 1916, no campo do Fluminense, o Flamengo vencia (3 x 2) quando o árbitro inglês Robert Davies marcou pênalti contra o Fluminense. Rienner chutou fora. Três minutos depois, outro pênalti: Marcos Carneiro de Mendonça, melhor goleiro da época, defendeu a cobrança de Sidney Pullen, mas o árbitro mandou repetir porque não havia apitado. Marcos defendeu de novo a cobrança de Sidney e o árbitro mandou repetir por invasão da área.

A INVASÃO – Depois do quarto pênalti, o delegado de polícia Ataliba Dutra e o escritor Henrique Coelho Neto, tricolores fanáticos, pularam a grade e invadiram o campo, logo seguidos pelos outros 800 torcedores, lotação máxima. O jogo foi paralisado por 10 minutos. De acordo com o regulamento, em caso de interrupção além de cinco minutos, outro jogo inteiro. E assim foi: dia 8 de dezembro, no estádio do Botafogo, o Fluminense ganhou (3 x 1). 

Foto: NetFla e Jornal Opção