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O Fluminense homenageará seu ex-ponta-esquerda Escurinho, que morreu neste sábado (12) de falência múltipla dos órgãos, aos 90 anos, com o time usando tarja preta no uniforme, e um minuto de silêncio, antes do último jogo da vigésima quinta rodada do Campeonato Brasileiro com o Vasco, na noite deste domingo (13), em São Januário. Ele fez 490 jogos e é o quinto que mais jogou pelo clube, depois de Castilho (598), Pinheiro (603), Altair (559) e Telê (551).

EM TODOS OS JOGOS – Depois de ganhar o último título de campeão mineiro em 1951 com o Vila Nova, de Nova Lima, onde nasceu, Escurinho foi indicado ao Fluminense pelo técnico Martin Francisco, um dos grandes estrategistas da época, que seria campeão carioca em 56 no Vasco. Ponta de muita velocidade, bom nos dribles, cruzamentos e finalizações, participou de todos os 22 jogos do único título carioca que ganhou com o Fluminense, em 1959, e foi o terceiro artilheiro com 8 gols, depois de Waldo (14) e Telê (10).

FIGURA IMPORTANTE – O Fluminense havia sido o segundo campeão carioca no Maracanã, em 1951, com Zezé Moreira comandando o então famoso Timinho, e ao voltar em 59, o técnico só reencontrou Castilho, Pinheiro e o meia Orlando Pìngo de Ouro, quase se despedindo. Adepto do ferrolho suíço, o técnico sabia fechar a defesa e jogar nos contra-ataques. Nos 22 jogos, o Fluminense fez 45, sofreu apenas 9, ganhou 17, empatou 4 e só perdeu do Bangu. Escurinho foi figura importante.

PARA QUE TRICOLORES mais antigos recordem e os mais novos saibam, os campeões cariocas de 1959 foram Castilho, Jair Marinho, Pinheiro (cap), Clóvis e Altair; Edmilson e Paulinho, com Jair Francisco, recém comprado do Bonsucesso, também participando; Maurinho, Telê, Waldo e Escurinho. Bom dizer: Telê era o que mais se desgastava no time, e o médico Newton Paes Barreto recomendava que se alimentasse bem. Não raro, almoçava feijoada completa de três a quatro dias na semana…
De tão magro, deram-lhe o apelido de Fiapo…

GRANDE TORNEIO – Dois anos antes do título carioca de 59, Escurinho foi também figura importante no esquema de Sylvio Pirilo, técnico que fez do Fluminense, depois de dez anos de domínio dos times paulistas, o primeiro carioca a ganhar, invicto, o Rio-São Paulo de 1957. Escurinho gostava de aprender espanhol com o goleiro paraguaio Victor Gonzalez, que o Vasco emprestou ao Fluminense para o grande torneio, porque Castilho havia amputado a metade do dedo mínio da mão esquerda.

A MAIOR TRISTEZA – Escurinho foi uma dessas amizades especiais que fiz no futebol. Sempre alegre e sorridente, ele me fez algumas confissões. Entre as tristezas que viveu em campo, a da perda do bicampeonato carioca em 60, na final com o América. No título de 59, o Fluminense foi o último campeão do Distrito Federal, com a mudança da capital para Brasília. Em 60, seria o primeiro campeão do novo estado da Guanabara, jogava pelo empate, fez 1 x 0, mas levou a virada no segundo tempo.

A MAIOR ALEGRIA – Três anos depois, mesmo perdendo a final do Carioca de 63, em que o Flamengo jogava pelo empate, o 0 x 0 lhe deu a maior alegria, não pelo resultado, mas por ter participado de espetáculo histórico. O Fla-Flu daquele domingo, 15 de dezembro de 63, bateu o recorde mundial de público, em jogo de times da mesma cidade, com 177.020 pagantes. Foi o último título de Flávio Costa, técnico que sete anos antes o havia convocado para a seleção brasileira em grande viagem à Europa.

SABIA MUITO – Escurinho me disse certa vez, em sua casa, na Rua Alvaro Ramos, em Botafogo, que Flávio era um técnico que sabia muito: “Depois que teve a infelicidade de perder a Copa no Maracanã para o Uruguai, ele sugeriu à CBD que a seleção jogasse mais na Europa porque só jogava pela América do Sul. A viagem de 56 ajudou muito em 58, tanto que os amistosos foram com europeus, antes que a seleção chegasse à Suécia”.

GOL HISTÓRICO – Escurinho também recordava que na viagem de 56 participou do jogo com Portugal, no estádio do Jamor, onde Gino, centroavante do São Paulo, fez o gol de bicicleta, e ele lembrou: “Depois do Leônidas, na Copa de 38, a seleção voltou a fazer um gol de bicicleta com o Gino”. Bom lembrar a escalação do gol histórico: Gylmar, Djalma Santos, De Sordi (Pavão), Zózimo e Nilton Santos; Roberto e Didi; Sabará, Walter, Gino e Canhoteiro (Escurinho).

TAXISTA – De um tempo em que mesmo os jogadores excepcionais não ganhavam tanto, Escurinho poupou, com bom mineiro, mas não teve como deixar de buscar outra atividade, como se dizia na época, “ao pendurar as chuteiras”. Foi motorista de táxi, manteve o padrão de vida da família e continuava feliz. Fica a lembrança de um profissional correto, admirado pelos colegas e querido pelos torcedores, que reconheciam nele uma figura do bem.

BENEDITO CUSTÓDIO FERREIRA, o Escurinho, nascido em 3 de julho de 1930, em Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte, honrou a camisa do Vila Nova – 115 jogos, 53 gols -, entre 1949; a do Fluminense – 490 jogos, 111 gols -, entre 1954 e 1964; do colombiano Junior Barranquilla – 43 jogos, 20 gols -, em 1965; da Portuguesa – 60 jogos, 26 gols -, entre 67 e 59; do Bonsucesso – 6 gols em 14 jogos -, em 1970. Na seleção, 5 vitórias, 3 empates, 1 gol. Que Deus dê muita luz ao seu espírito.

Foto: Manchete, Terceiro Tempo, Tardes de Pacaembu,