2 DE JUNHO 1962 – Minutos após a distensão muscular na coxa, que tirou Pelé da Copa do Mundo, Luiz Fernando ouve o craque, ao lado de Garrincha, na saída do gramado do estádio de Sausalito, em Viña del Mar, no Chile. Um dos grandes momentos da carreira do repórter, na época de ouro do rádio dinâmico, atuante, em cima do lance.

Entristece-me registrar a morte de Luiz Fernando. Quando iniciei na Rádio Nacional, em 1958, ele já era um dos grandes nomes do rádio esportivo do Rio, com atuações destacadas na Continental, que não era tratada como rádio, mas como emissora, e tinha dois slogans: 100% esportiva e A Casa do Esporte. A resenha do meio-dia, com duas horas de duração, era completa, em informação e análise. A emissora transmitia tudo, até campeonato juvenil e dizia orgulhosa: a Continental está em todas.

LUIZ FERNANDO foi contemporâneo de notáveis, entre eles Clóvis Filho, narrador de muita precisão e incrível velocidade na transmissão dos lances. Clóvis foi o criador do slogan O repórter que sabe de tudo, marcante na carreira de Luiz Fernando, profissional que se preparava para cada programa e jornada, com o esmero dos que gostam de fazer bem feito. Era o primeiro a chegar e o último a sair do estádio, nunca antes de hora e meia após o jogo, com o prolongamento da transmissão.

DESABAFO DO CRAQUE – Ao entrevistar Zizinho, no intervalo de Vasco 2 x 0 Bangu, na penúltima rodada do returno do Campeonato Carioca de 1956, na tarde de sábado, 15 de dezembro, Luiz Fernando conseguiu o desabafo do craque, revoltado com o pênalti que Vavá converteu no segundo gol: “Sempre ouvi, mas hoje senti na pele o que é esse larápio de Queirós“, disse Zizinho, referindo-se ao árbitro Eunápio Gouvêa de Queirós, na época, tratado por alguns como larápio (ladrão). 

A EXPULSÃO RARA – Na época, o árbitro não descia para o vestiário do Maracanã no intervalo. Luiz Fernando, depois de ouvir Zizinho, foi falar, fora do ar, com Eunápio, relatando a declaração do craque. Quando o Bangu voltou para o segundo tempo, o árbitro chamou Zizinho, que confirmou tudo o que havia dito ao repórter. Eunápio foi direto: “O jogo acabou para o senhor. Está expulso”. Foi seu último jogo no Bangu – 282 jogos, 126 gols, entre 1950 e 1956 –, aos 35 anos, vice-campeão em 1951, artilheiro em 1952, e ainda com fôlego para ser campeão paulista no São Paulo, em 1957, aos 36, quase 37 anos. 

LUIZ FERNANDO Vassalo Guichard, carioca, 87 anos, sepultado nesta terça (14), no Caju, cemitério da zona portuária do Rio, foi também professor do Colégio Antonio Prado Junior, na Tijuca, bairro elegante da Zona Norte, onde desfrutou boa parte da vida, simples e tranquila. Ele me contou a história da expulsão de Zizinho, em um treino da seleção na Granja Comary, onde apenas matava saudade dos tempos de (excelente) repórter. Era síndico do Condomínio Pedra do Sino, em Teresópolis.

Que Deus dê muita luz ao espírito de Luiz Fernando.

Fotos: Audiência Carioca