O corpo de Diego Maradona, que morreu de parada cardiorrespiratória aos 60 anos, por volta do meio dia desta quarta (25), em sua casa, na cidade de Tigre, ao Norte de Buenos Aires, será velado no salão nobre da Casa Rosada, sede do governo, por decisão do presidente Alberto Fernandez, que decretou luto oficial por três dias, em nome dos 46 milhões de argentinos, consternados com a perda de uma das figuras mais importantes da história do futebol do país e do mundo. Mais de um milhão de torcedores são esperados no velório.

A FORÇA DO AMIGUINHO – Pablito, colega das peladas da favela de Lanús, província pobre da região Oeste da Grande Buenos Aires, foi aprovado no teste da base do Argentinos Juniors, e depois de ouvir elogios do treinador, disse-lhe que tinha um amiguinho que jogava ainda mais do que ele. Francis Cornejo deu-lhe 10 pesos para que o levasse ao treino do dia seguinte. O técnico e seus auxiliares não acreditaram no que viram o menino fazer no primeiro treino e o acompanharam na volta à casa.

A CERTIDÃO – Ao chegarem à casa simples, onde o garoto baixinho e franzino vivia com a mãe, pediram que ela mostrasse a certidão de nascimento do menino, certificando-se então de que ele realmente tinha nove anos de idade. O trabalho do técnico e de seus assistentes prosseguiu, com a atenção sendo redobrada, sobretudo na parte alimentar, de vez que o garoto era pequeno e muito magro, quase raquítico, mas seguia as orientações com muita obediência.

FUNDAMENTOS – Aos 15 anos e tratado pelo primeiro sobrenome, Armando, o garoto foi lançado nas preliminares, destacando-se em todos os fundamentos: dribles, faltas, escanteios, passes e chutes. Observadores da AFA, sem serem notados, foram chamados para vê-lo, e pouco antes dos 17 anos, era convocado para a seleção. Causou surpresa, após ter sido artilheiro do campeonato sub-20 e eleito melhor sul-americano da categoria, não ter sido convocado para a Copa de 1978.

“ESTOU SONHANDO”, foi o que disse Maradona, já então tratado pelo sobrenome que o consagraria, ao ser procurado pelo Boca Juniors, sua paixão de sempre. O Argentinos Juniors não só o emprestou, mas também o homenageou, dando seu nome ao estádio, onde estreou, com a camisa do Boca, no primeiro tempo, em que fez um gol, e na volta do intervalo, com a camisa do Argentinos Juniors, marcando outro gol e deixando o 1 x 1 como resultado alegre para o ex e o novo clube.

PRIMEIRO TÍTULO – Com 149 gols em 166 jogos como profissional, entre 1976 e 1982, Maradona só ganhou o primeiro título como profissional, depois de cinco anos de jejum do Boca, em 81, quando marcou, junto com Brindísi, outro notável, 33 dos 60 gols da campanha do time. No primeiro Boca x River, fez um gol nos 3 x 0, driblando até o goleiro Fillol. O feito faz parte do Livro de Ouro do centenário do clube, como um dos 10 Boca x River inesquecíveis da história.

7 MILHÕES DE DÓLARES – Expulso de campo em seu último jogo oficial na Bombonera, ao revidar uma entrada maldosa do zagueiro do Velez Sarsfield, Maradona foi suspenso por 12 jogos, e o Boca formou uma equipe, em que foi incluído, para amistosos na Ásia. Na volta, foi vendido pouco antes da Copa de 82, por 7 milhões de dólares para o Barcelona, campeão pela última vez em 74. No final de 82, contraiu hepatite e ficou três meses afastado.

APLAUDIDO DE PÉ – Recuperado, Maradona foi o destaque da decisão da Copa do Rei da Espanha com o Real Madrid, tornando-se um dos primeiros estrangeiros a ser aplaudido de pé, pela torcida arquirrival, no estádio Santiago Bernabeu, palco de atuações de outro argentino notável, Alfredo Di Stefano, astro das cinco primeiras Ligas de Campeões ganhas pelo Real Madrid. Seus dois gols na vitória (2 x 1) sobre o Real Madrid estão na lista dos gols antológicos do futebol espanhol.

SUSPENSÃO LONGA – Após 106 dias inativo, devido à fratura do tornozelo esquerdo, atingido por falta duríssima do zagueiro Andoni, do Athletico de Bilbao, Maradona foi suspenso por três meses pela Real Federação Espanhola de Futebol, ao criar uma briga generalizada na final da Copa do Rei de 83. O Barcelona aproveitou a suspensão longa para vendê-lo ao Napoli. Após dois anos, com 38 gols em 58 jogos, saiu decepcionado pelo pouco interesse do clube em defendê-lo no tribunal esportivo.

MUITA INVEJA – Em sua autobiografia Yo Soy Diego (Eu Sou Diego), ele escreveu que o presidente Josep Nuñez tinha muita inveja de sua popularidade, e ressaltou também que não se saiu melhor no Barcelona, devido às contusões e à hepatite. No entanto, Maradona gostava muito mais de Madrid do que de Barcelona, o que chegou a revelar em fala pública, o que provocou muito descontentamento entre os catalães, desde sempre arquirrivais dos madrilenhos.

INÍCIO DAS DROGAS – Foi também em sua autobiografia que Maradona contou, pela primeira vez, que seu relacionamento com as drogas começou na Catalunha. Fez outro relato, até então inédito, ao dizer que aceitou a transferência para o Napoli porque estava arruinado financeiramente. Nem mesmo deixou de contar que incluiu a casa de alto luxo, em que vivia em Barcelona, para quitar as muitas dívidas, que já o deixavam noites sem dormir bem.

NA ITÁLIA – Poucos se recordam: em 79, ainda no Argentinos Juniors, Maradona teve convite do Napoli, e desdenhou: “Napoli? Acho que é apenas uma coisa italiana, tipo pizza”… Maradona poderia ter ido para um clube mais rico, a Juventus, mas preferiu o Napoli, ao se sentir ofendido pelo presidente Giampiero Boniperti: “Um jogador baixinho e com esse porte fisico, não chega a lugar algum”. Boniperti, atacante de 465 jogos e 182 gols, só jogou na Juventus, entre 1946 e 1961, e foi pentacampeão.

A CONSAGRAÇÃO – O Napoli foi o clube da consagração de Maradona, com 199 gols em 259 jogos, entre 84 e 91, mas ele teve que esperar pelo título de 86-87, depois de oitavo em 84-85, dez pontos atrás do campeão Verona, e terceiro em 85-86. Em 86, já campeão do mundo, o primeiro problema extracampo em Napoli: Cristina Sinagra, sua ex-empregada doméstica, disse que ele era o pai do filho que ela teve. Ele demorou quase tanto tempo para reconhecer quanto para conhecer o filho Diego Jr.

NOME DA MÃE – A felicidade de 86-87, campeão italiano, aumentou com o nascimento de Dalma, nome de sua mãe, que deu à filha da união com Claudia Vilafañe, paixão de infância, com quem só se casou, em 89, quando nasceu Giannina, futura esposa de Sergio Aguero, artilheiro do Manchester City. Foram casados de 2008 a 2012 e deram a Maradona o neto Benjamin, nascido em Buenos Aires, quando ainda eram só namorados. Dalma e Giannina fizeram o que puderam para livrar o pai das drogas.

POLÊMICA NACIONAL – Após o segundo título italiano do Napoli, em 89-90, Maradona criou polêmica nacional,  antes de eliminar a Itália na semifinal da Copa de 90, quando pediu que os napolitanos torcessem pela Argentina, e foi fundo: “Sou napolitano 365 dias por ano e vocês, nascidos aqui, são considerados estrangeiros pelo resto da Itália, e têm que fazer o que o resto da Itália quer. Nada disso: torçam por mim, torçam pela Argentina”. Bom lembrar: a Alemanha venceu a Argentina na final.

ESCANCARADO – Em 90-91 Maradona entrou em declínio, após aumentar o rancor de parte dos italianos, e de jogar pouco, devido às muitas contusões e à eliminação do Napoli da Copa dos Campeões pelo Spartak Moscou. Ele testou positivo para cocaína, após o jogo com o Bari, o que escancarou ao mundo sua ligação com a droga. E mais: o relacionamento estreito com a Camorra, a maior organização criminosa italiana, que começou no século 18 na Sardenha e se estendeu a Napoli no século 19.

SUSPENSÃO E DECLÍNIO – Com o escândalo mundial, Maradona foi suspenso por 15 meses e entrou na reta final do declínio. Carlos Bilardo, que o dirigiu nas Copas de 86 e 90, tentou salvá-lo, levando-o para o Sevilha, mas Maradona não passou de 29 jogos e 14 gols, entre 92 e 93. Pior ainda em 93-94, na volta à Argentina, em apenas cinco jogos e nenhum gol com a camisa do Newell’s Old Boys. Quase tão triste quanto o final dos finais, entre 95 e 2001, no Boca, com 12 gols em 34 jogos.

MÉTODOS SUJOS – Os argentinos mais antigos recordam que Maradona aprendeu lições com um mau professor, Carlos Bilardo, hoje aos 81 anos, seu técnico campeão do mundo em 86 e vice em 90, adepto de métodos sujos, tipo “tem que ganhar, seja do jeito que for”. Ex-meia, tricampeão da Libertadores 68-69-70 com o Estudiantes de La Plata, Bilardo levava agulha na meia para ferir os adversários e procurava saber da vida pessoal deles para provocá-los e criar expulsões. Poucos sabem: no jogo com o Brasil, na Copa de 90, foi dele a ideia de servir “água mineral batizada” que deixou o lateral Branco se sentindo mal.

Fotos: Jovem Pan, oJogo, BBC, Terra, DEstaque Notícias, goal.com, Gaz, Veja, El País, DCM, R& Esportes, The Guadian,