Entristece-me, e muito, registrar a morte de Mendonça, que tantas vezes entrevistei, antes, durante e depois de exibições de gala que fez com a camisa do Botafogo, que vestiu e honrou em 342 jogos, de 1975 a 1982. Dos 118 gols que marcou, a maioria foi de falta e de fora da área, com seu jeito simples de bater na bola, com o lado interno do pé direito. De todos, o mais bonito foi o que os torcedores batizaram de “Baila comigo”, após dois dribles desconcertantes no então lateral-esquerdo Júnior.

COM O PAI – Conheci Mendonça aos seis, sete anos, no estádio do Bangu, onde o pai era o gerente, depois de ser vice-campeão carioca em 51, em um time com Oswaldo, Mendonça e RafaneliRui, Mirim e AlaíneDjalma, Moacir Bueno, Zizinho, Menezes e Nívio. Zizinho e Menezes dividiram com 19 gols a artilharia do campeonato de 52. Rafaneli era argentino. Nívio veio do Atlético Mineiro. Mirim foi para o Vasco. O técnico era Ondino Viera, uruguaio campeão invicto em 1945 no Vasco. 

DENTE DE LEITE – Mendonça tinha certeza de que o filho seria bem-sucedido no futebol e logo o colocou no dente de leite do Bangu. Cinco anos depois, aos 17, o filho ganhava com o Botafogo o Torneio Mundial disputado por dez equipes, em Croix, perto de Lille, principal cidade do Norte francês. Mendonça gostava do Botafogo e viu nascer a geração de ouro do bi carioca 67-68, admirando de perto seus ídolos Rogerio, Carlos Roberto, Jairzinho, Roberto e Paulo Cezar, antes campeões juvenis.

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GOL DE PLACA – O gol “Baila comigo” teve o reconhecimento da direção do Maracanã e os torcedores do Botafogo lotaram o saguão do estádio para prestigiar a festa do Gol de Placa. Tempos depois, como tantas outras, a placa sumiu. Mendonça saiu do Rio para jogar na Portuguesa e depois de dois anos foi em 85 para o Palmeiras – 19 gols em 106 jogos -, até 87. Seu último grande time foi o Santos, de onde voltou em 1990 para vestir a camisa do Bangu, como tributo à memória do pai. 

PRÉ-OLÍMPICA – O único jogo de Mendonça com a camisa da seleção brasileira (pré-Olímpica) foi em 21 de janeiro de 76, no estádio do Arruda, no Recife, onde deu assistência para Claudio Adão marcar o gol de empate (1 x 1) com o Uruguai. A seleção: Carlos, Rosemiro, Tecão, Edinho e Chico Fraga; Alberto Leguelé e Mendonça; Cremilson, Erivelto, Claudio Adão e Tiquinho. O técnico era Zizinho, companheiro de seu pai no time vice-campeão carioca de 51 do Bangu. 

HOMENAGENS – Em 2008, participando apenas de amistosos de exibição de equipes de masters, Mendonça recebeu as duas últimas homenagens. Em fevereiro, colocou os pés na Calçada da Fama do Maracanã, e em agosto o palacete de General Severiano se engalanou para a festa, muito concorrida, do lançamento da camisa retrô com seu número 8. Mendonça não resistiu ao alcoolismo, mesmo com o apoio de parceiros como Adílio, meia de talento igual a ele, que conseguiu interná-lo em uma clínica.

A LEMBRANÇA – Amigo pessoal de Mendonça, com quem assisti a alguns jogos mais recentes na tribuna do novo Maracanã, vou guardar a lembrança de um profissional correto, inteligente, brilhante e que me inspirou a criar para ele uma expressão que ele gostava de ouvir e sorria, antes das entrevistas que fazia no rádio, enquanto de repórter de campo e ele com a camisa do Glorioso: está conosco o camisa 8 Mendonça, o craque talento do Botafogo.  Mendonça foi um desses amigos inesquecíveis. Com certeza, Deus dará muita luz ao espírito dele.

Foto: divulgação