Rodriguez Andrade, único negro campeão na final de 16 de julho no Maracanã, conta histórias da Copa de 1950 ao repórter Deni Menezes, 17 anos depois, na porta do Senado uruguaio, em Montevidéu. A foto é de 16 de maio de 1967. (Acervo Pessoal Deni Menezes)

Em 16 de julho de 1950, quando Brasil e Uruguai decidiram a quarta Copa do Mundo, diante de 200 mil torcedores no Maracanã, eu tinha dez anos e acompanhava o futebol em Manaus pela Rádio Nacional. Dezesseis anos depois, em 1967, quando fui a Montevidéu com a seleção brasileira, cobrir a Copa Rio Branco, ocorreu-me a ideia de fazer uma série sob o título Como vivem os heróis de 50, aprovada por Ricardo Serran, editor de Esportes de O Globo, onde escrevi de 64 a 76.

O PRIMEIRO com quem converseifoi o lateral Rodriguez Andrade, único negro da seleção campeã do mundo em 50 no Maracanã. Elegante, fino, educado, recebeu-me na porta do Senado, em Montevidéu, onde trabalhava. Ele estava com 40 anos e me contou muita história, fazendo questão de recordar que seu tio, Leandro Andrade, também lateral, havia sido bicampeão olímpico, em 24 e 28, e campeão da primeira Copa do Mundo, que a FIFA realizou no Uruguai em 1930.

SÓ UM MÊS DE TREINO – Rodriguez acrescentou o sobrenome Andrade, do tio, para homenageá-lo, porque jogava como Victor Rodriguez. Na seleção de 50, ele era um dos três titulares que não jogavam nem no Nacional nem no Peñarol, mas no modesto Central, penúltimo dos dez times do campeonato uruguaio. “Talvez se o técnico (Juan Lopez) não dirigisse o time em que eu jogava, eu não tivesse sido convocado para a Copa. Tivemos só um mês de treinamento” – disse ele.

A FINAL DO MARACANÃ – Ficamos em um hotel calmo (Paysandu Hotel, no Flamengo) e concentrados só no jogo. Os brasileiros tinham goleado a Espanha e a Suécia, marcando 13 gols nos dois jogos. Na véspera da final, um jornal publicou a foto da seleção e escreveu assim: estes são os campeões do mundo. Obdúlio, nosso capitão, comprou vários e pediu que todos lessem. Depois jogou os jornais no chão e nos disse: urinem nessa porcaria. Amanhã eles vão ver quem são os campeões do mundo.

DISCURSO DO PREFEITO – Sempre com voz pausada, Rodriguez Andrade me contou que “antes do jogo, o prefeito (General Ângelo Mendes de Moraes) usou o alto-falante do estádio para fazer um discurso, saudando os campeões do mundo, o que nos deixou ainda mais enfurecidos”. Ele recordou que o capitão Obdúlio Varela tinha pedido: “Ao entrar em campo, todos têm que beijar a camisa”. E assim, segundo ele, foi feito, inclusive durante a execução do Hino Nacional.

MUITO TENSOS – Rodriguez Andrade contou-me que “os jogadores brasileiros se mostravam muito mais tensos do que nós. Os torcedores agitavam muitos lenços brancos, que não sabíamos o que queriam dizer. Quando voltaram para o segundo tempo, os jogadores brasileiros se mostravam nervosos e inquietos porque o jogo estava 0 x 0. Fizeram o gol logo nos primeiros minutos e os torcedores comemoravam como se tudo estivesse decidido”.

ATÉ INTÉRPRETE – Rodriguez Andrade recordou que Obdúlio Varela, o capitão, chamado de chefe pelos companheiros, teve uma ideia que esfriou a seleção brasileira: “Depois do gol (do ponta-direita Albino Friaça), ele ficou com a bola na mão e parou o jogo mais de cinco minutos, deixando o árbitro (George Reader, inglês) sem entender nada. Obdúlio até chamou o intérprete para explicar que o gol tinha sido em impedimento”.

A VIRADA – O Uruguai não tinha outra saída, a não ser fazer dois gols porque o Brasil jogava pelo empate. Rodriguez Andrade lembrou que Obdúlio mandou o time se adiantar. O gol de empate, do meia Juan Schiaffino, não demorou. E o da virada, marcado pelo ponta-direita Gigghia, veio logo depois: “Os jogadores se descontrolaram e os torcedores emudeceram. Controlamos o jogo, marcamos forte e seguramos a vantagem. O estádio ficou em silêncio e nós comemoramos respeitando a dor dos brasileiros”.

A DECEPÇÃO – Rodriguez Andrade recordou que Obdúlio, na época aos 33 anos, retirou-se amargurado: “Não só ele, mas todos nós. Os dirigentes da Associação Uruguaia de Futebol nunca haviam comemorado os títulos olímpicos de 1924 e 1928 nem a Copa de 1930. Fizemos o impossível em 1954 para ganhar de novo a Copa na Suíça, ainda com Máspoli (goleiro), Gigghia, Schiaffino e Obdúlio, mas nem nos aproximamos da final. Os dirigentes nos deram as costas”.

RODRIGUEZ ANDRADE participou de 42 jogos, de 47 a 57, e foi dos primeiros campeões do mundo a morrer, aos 58 anos, em maio de 1985, pobre porque ganhava pouco no Senado e sustentava uma família grande. Schiaffino ganhou dinheiro na Itália jogando pelo Milan e comprou uma imobiliária em Montevidéu. Gigghia jogou oito anos na Roma, mas não soube economizar. Máspoli foi técnico do Peñarol, onde jogou e morreu como ídolo. Obdúlio, o grande capitão, morreu pobre depois de anos como controlador das mesas de apostas do Cassino de Montevidéu.

OS CAMPEÕES DO MUNDO de 1950 no Maracanã – como me contou Victor Rodriguez Andrade – ficaram decepcionados com o descaso do passar do tempoHoje, 16 de julho de 2019, faz 69 anos que o Brasil foi o primeiro da história a perder a Copa do Mundo em casa, jogando pelo empate, fazendo 1 x 0 e levando a virada em menos de meia hora. Uma tragédia da história do futebol, diante de 200 mil torcedores, no então maior estádio do mundo, que os uruguaios batizaram de Maracanazo.