QUATRO ANOS DEPOIS DE TER SIDO BICAMPEÃO CARIOCA, em 61-62, na ponta-esquerda de um dos ataques mais marcantes da história, Zagallo ganhou o primeiro título como técnico em 1966, dirigindo o juvenil do Botafogo, que venceu 16 dos 22 jogos, marcou 47 gols e sofreu 10. Foi, por assim dizer, o vestibular para treinador da equipe principal, no bicampeonato carioca de 67-68, em campanhas rigorosamente iguais: 15 vitórias, 2 empates, só uma derrota.

NA ÉPOCA DE OURO DO CAMPEONATO CARIOCA, com estádios lotados, a cobertura dos jogos de juvenis, aspirantes e profissionais era completa, mantendo o torcedor com o radinho ligado. Impossível esquecer, mesmo depois de 55 anos, que atravessei o gramado do estádio de General Severiano entrevistando Zagallo, quando se dirigia ao banco de reservas, do outro lado da saída do vestiário. Sábado, 16 de abril de 66, Botafogo 1 x 0 Bonsucesso, gol do volante Denísson.

DO TIME CAMPEÃO JUVENIL COM ZAGALLO, só dois foram bicampeões em 67-68: o lateral Valtencir, 4º que mais jogou com o manto alvinegro – 453 jogos, de 67 a 76 -, depois do mestre Nilton Santos – 721 jogos, de 47 a 64 -; de Garrincha, maior ponta-direita de sempre – 612 jogos, de 53 a 65 -, e do goleiro Jefferson – 459 jogos, 2003-05 e 2009-18 -, e o ponta Rogério, que compôs com Roberto, Jairzinho e Paulo Cezar, um dos ataques notáveis da história.

OS TÉCNICOS DA ÉPOCA usavam giz e quadro negro (Lousa, do meu tempo de primário no GE Marechal Hermes e de ginásio no Pedro II, em Manaus), mas Zagallo, sempre anos-luz à frente, foi dos primeiros a orientar com botões no tabuleiro: “Os jogadores gostavam mais e poderiam perguntar, se não entendessem” – dizia ele. Do bi 61-62 de Zagallo ponta, o único era Manga, goleiro titular em todos os jogos, como também no título de 67.

ALÉM DE SUPERSTICIOSO, Zagallo sempre abusou do direito de ser detalhista, tanto que, em dois títulos consecutivos, as campanhas foram rigorosamente iguais em tudo: o Botafogo venceu 15 jogos, empatou 2 e a única derrota, em 67-68, foi na penúltima rodada do turno, para o mesmo adversário (Vasco) e pelo mesmo placar (2 x 0). Na final de 67, com 111.641 pagantes, 2 x 1 no Bangu, campeão de 66, e na final de 68, 4 x 0 no Vasco, com 141.689 pagantes, apesar do aguaceiro daquele domingo, 9 de julho. 

ZAGALLO E TODOS OS BICAMPEÕES DE 61-62 e 67-68 foram importantes na renovação da torcida do Botafogo. Na semana da final de 62, 3 x 0 no Flamengo, 2 gols de Garrincha, com 148 mil pagantes, Manga lançou a frase: “Gasto o bicho (prêmio por vitória), antes de receber. É a maior moleza ganhar deles”. Os rubro-negros iam à loucura. O Botafogo fez 30 gols e não sofreu gol em 11 dos 18 jogos no 1º título de Zagallo como técnico profissional em 67.

COM A BASE DA EQUIPE MANTIDA, o Botafogo fez uma das finais mais apoteóticas no bi de 68. Com dois gols em cada tempo – Roberto, Rogerio, Jairzinho e Gerson -, o time terminou trocando passes, aos gritos repetidos de olé! A equipe: Cao, Moreira, Zé Carlos, Leônidas e Valtencir; Carlos Roberto e Gerson; Rogerio, Roberto, Jairzinho e Paulo Cezar. Zagallo iniciou com Manga e terminou com Cao (9 jogos cada um).

ZAGALLO TORNOU-SE O 1º CAMPEÃO DO MUNDO, como jogador e técnico, em 1970, com cinco do Botafogo na seleção, e voltou a ser campeão carioca em 1971 com o Fluminense, por ironia do destino, vencendo o Botafogo, que jogava pelo empate, por 1 x 0, gol do ponta-esquerda Lula aos 43 do 2º tempo. De novo, perdendo só 1 dos 20 jogos. E os títulos foram se renovando, mas aí é outra história. Ou, como se dizia no meu tempo de garoto, em Manaus, aí são outros 500.

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