Alegra-me registrar o aniversário de Paulo Cezar Lima, titular do time de talentos da geração de ouro  do futebol brasileiro, campeoníssimo desde os 17 anos, quando foi bicampeão carioca 67-68, com atuação destacada na final da Taça Guanabara de 67, em que marcou os três gols na decisão com o América. Foram também os primeiros títulos do técnico Zagallo, que após o 1 x 0 na Inglaterra, na Copa de 70, resumiu: “A atuação tática do Paulo Cezar foi perfeita”.

OS ATAQUES – Depois do primeiro bicampeonato no Maracanã, em 61-62, com Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagallo, o Botafogo voltou a ter outro ataque dos sonhos no bicampeonato 67-68: Rogerio, Gerson, Roberto, Jairzinho e Paulo Cezar, que relembra: “Os dois times campeões foram extraordinários, mas o do bi 61-62 era melhor”. O técnico era Marinho Rodrigues, pai adotivo de Paulo Cezar, lateral do primeiro tricampeonato do Flamengo no Maracanã (53-54-55).

CHARLES CHAPLIN – Paulo Cezar é franco, objetivo, direto, não deixa pergunta sem resposta, como a que lhe fiz sobre os ataques: Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagallo ou Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe? “Eu escalaria um em cada tempo”. Pelé ou Garrincha? “Não posso separar o Pelé do Garrincha nem dizer quem foi melhor. O Garrincha foi o Charles Chaplin do futebol. Na véspera do jogo, os marcadores dele não conseguiam dormir”…

TITULAR DIRETO – Caso raro na sua geração, Paulo Cezar não iniciou juvenil, foi titular direto, aos 15 anos, no Union Magdalena, da cidade de Santa Marta, cidade portuária no mar das Caraíbas e primeira colônia espanhola na Colômbia. Acompanhou o pai adotivo Marinho, dos bons treinadores dos anos 50/60, que foi depois para o Junior Barranquilla e o escalou na ponta-direita, em ataque com Oto Valentim, Dida e Escurinho, na goleada de 5 x 2 no Millonarios de Bogotá.

MAIS QUE PAIS – Milta e Marinho, pais de Paulo Cezar e Fred, moravam no 1273 e eu no 1327 da Ataulfo de Paiva, no final do Leblon, que João Saldanha chamava de N, última letra do nome do bairro. Fred era titular do Columbia, time da praia, em que Iata Anderson era artilheiro. Conheci Paulo Cezar moleque, de calça curta, e algumas vezes fiquei impressionado com a habilidade dele na quadra do Flamengo, na Gávea, jogando futsal, na época, futebol de salão.

SEI BEM DA IMPORTÂNCIA de Milta e Marinho na formação de Paulo Cezar, como homem e como profissional da bola. Técnico do time bicampeão 61-62, Marinho levou Paulo Cezar ao primeiro treino no Botafogo e ele fez três gols. Gerson ficou empolgado e pediu ao presidente Mauro Ney Palmeiro que o contratasse. Marinho preparou a opção de compra e o presidente assinou. Estava aberto o caminho do sucesso para um dos campeoníssimos da bola.

HISTORINHAS – O brasileiro gosta muito de comparações. Como poucos, Paulo Cezar sabe das coisas: “Como dizer qual foi a melhor seleção, a de 58 ou a de 70? Eu escalaria uma em cada tempo. Como poderia deixar fora da melhor seleção Garrincha, Nilton Santos, Didi?” Paulo Cezar diz que é bom ser saudosista: “Só se sente saudade do que foi bom. Como alguém será capaz de sentir saudade daqui a 10, 15 anos, do que estamos vendo no futebol de agora?”

GRANDES NOMES – Paulo Cezar jogou contra Eusebio, Cruyff, Beckenbauer e participou do jogo de despedida de Platini, que ficou 27 anos como maior artilheiro da Eurocopa. Paulo Cezar aprendeu francês, que fala com fluência, quando jogou (74-75) no Olympique Marselha, campeão da Copa da França. Em 2016, em solenidade no Rio, Paulo Cezar recebeu a Medalha da Legião de Honra da França, entregue pelo presidente François Hollande, seu admirador.

OS TRICOLORES – Paulo Cezar foi bicampeão gaúcho (79-80), campeão da Libertadores e do Mundial de clubes com o Grêmio (1983), e se alegra ao lembrar que jogou com os notáveis Teófilo Cubillas, meia-atacante peruano, e Ancheta, zagueiro uruguaio, no grande time do Grêmio, primeiro gaúcho campeão da Libertadores e Mundial. De quando em vez, Paulo Cezar encaixa o sorriso e deixa no ar uma provocação, tipo assim: “Nunca perdi Gre-Nal… Ganhei quase todos”…

MARADONA OU MESSI? – A resposta de Paulo Cezar é como um bate-pronto: “Maradona, claro. Maradona era o futebol natural. Messi é o futebol de robô”. Sobre dois outros gênios do meio-campo: Didi (bi 58-62) ou Gerson (70)? Paulo Cezar manda de primeira: “Jogaram e jogaram muito. A bola nunca foi maltratada por eles. Gênios”. Paulo Cezar lembra 70: “Ganhamos da Tchecoslováquia, campeã da Europa, e da Romênia, vice-campeã; da Inglaterra, campeã do mundo de 66; fizemos a virada (3 x 1) no Uruguai, que tinha Mazurkiewicz, Ancheta, Matosas, e 4 x 1 na Itália, com Albertosi, Facchetti, Bonisegna”…

INESQUECÍVEL – Paulo Cezar não tem dúvida quanto ao seu jogo inesquecível: “Foi o da minha estreia no Botafogo, aos 17 anos. Natural que ninguém me conhecesse nem soubesse quem eu era. Jogo durissimo na decisão da Taça Guanabara de 67 com o América, que tinha um grande time, com Edu como referência. Ficamos com 10 porque o Jairzinho foi expulso aos 10 minutos e fomos para a prorrogação. Fiz os três gols, Botafogo 3 x 2, galera em delírio. Saudade!”

EMBAIXADOR – Paulo Cezar é embaixador do futebol brasileiro – ele e todos da seleção campeã do mundo em 70 -, sob contrato com a CBF, há um ano. Ele não deixa de revelar estranheza: “Nunca fomos convidados para passar nossa experiência. Não queremos tirar o lugar de ninguém, só gostaríamos de contribuir”. 

O APELIDO – Sempre tratei Paulo Cezar Lima pelo nome completo, nas entrevistas da época de repórter ou em nossas conversas, como a mais recente, dias antes do seu aniversário de 72 anos nesta quarta, 16 de junho, quando tomamos um café no Leblon. Mas, é bom dizer aos nossos seguidores: o apelido Caju, que se tornou quase um sobrenome, foi dado em 68, quando voltou dos Estados Unidos com os cabelos vermelhos. Ele escolheu a cor para demonstrar apoio ao movimento dos Panteras Negras, partido criado em defesa da comunidade afro-americana. 

PARABÉNS, Paulo Cezar pelo aniversário, em meu nome, do meu filho Fabio e do Marcelo Santos, web designer de categoria na publicação e seleção de fotos de todas as nossas matérias.

Fotos: NSC Total | Acervo Deni Menezes, Fabio Menezes | GZH | Jornal O Dia | Black Lives Matters in Football | Tudo Okay Notícias |