Na tarde da sexta-feira, 3 de abril de 1942, nasceu em Bangu, na Zona Oeste do Rio, o jogador carioca mais bem-sucedido no futebol paulista: Ademir da Guia, que hoje completa 79 anos. Seu nome foi escolhido pelo pai, Domingos da Guia, melhor zagueiro de todos os tempos, em homenagem a Ademir Menezes, primeiro artilheiro e campeão no Maracanã pelo Vasco, até hoje recordista de gols da seleção, em uma só Copa do Mundo, com 9, número da camisa que usava em 1950.

NATAÇÃO – Poucos também sabem que Ademir da Guia, antes de iniciar no futebol, foi campeão carioca de natação, aos 13 anos, com braçadas largas, na equipe infanto-juvenil do Bangu. Quando começou no juvenil do Bangu, aos 14 anos, foi escalado como zagueiro, posição em que o pai brilhou, mas Domingos convenceu o técnico a colocá-lo no meio-campo. Em 1957 e 1958, fez grandes jogos no juvenil do Botafogo, mas voltou ao Bangu em 1959 porque o pai achou baixa a proposta do Botafogo.

CAMPEÃO – Em seu primeiro ano como profissional, em 1960, Ademir da Guia foi campeão do Torneio Internacional de Nova York, aos 18 anos, dividindo honras em campo com os já experientes Décio Esteves, de 33 anos, meia titular desde 1950, e Ubirajara Mota, de 25 anos, goleiro que seria campeão carioca em 66, último título do clube. Ademir da Guia deu show na estreia, 4 x 0 na Sampdoria, e depois, nos 3 x 2 no Rapid, campeão da Áustria, e nos 5 x 1 no Sporting, vice-campeão português.

MELHORES – A Liga dos Estados Unidos queria impulsionar o futebol e convidou os campeões: Bayern (Alemanha), Nice (França), Burnley (Inglaterra), Norkkoping (Suécia), com quem o Bangu ficou no 0 x 0, após o goleiro defender pênalti do capitão Décio Esteves; o Estrela Vermelha, campeão da Iugoslávia, que o Bangu venceu por 2 x 0, placar que repetiu na final com o Kilmarnock, vice-campeão da Escócia. Décio Esteves, o craque do torneio; Bira Mota, melhor goleiro, e Da Guia, a revelação.

O MAESTRO – O Bangu era dirigido por Tim, meia tricampeão 36-37-38 no Fluminense, e da seleção na Copa de 1938. Tim sucedeu a outro notável: Zizinho, melhor jogador da Copa de 50; vice-campeão carioca em 1951 com o Bangu e campeão paulista em 1957 com o São Paulo. Ademir da Guia é reconhecido ao que aprendeu com Zizinho e Tim no início da carreira, e depois com os argentinos Filpo Nuñez e Armando Renganeschi, técnico que pediu ao Palmeiras que o contratasse.

CAMPEÕES – O time-base do Bangu, campeão invicto – 5 vitórias, 1 empate – do Torneio Internacional de Nova York: Ubirajara Mota, Joel e Darci Faria; Ananias, Zózimo e Nilton dos Santos; Correia, Zé Maria, Décio Esteves (Luis Carlos), Ademir da Guia (Valter) e Beto. O Bangu foi ao torneio, a convite de Sergio Vasconcelos, meu diretor na Rádio Nacional (1958-1965), que me deu a notícia em primeira mão, e da irmã dele, Dora Vasconcelos, diplomata do Consulado brasileiro em Nova York.

PALMEIRAS – Ademir da Guia jogou 15 anos no Palmeiras, comprado do Bangu por 3 milhões e 800 mil cruzeiros, moeda da época, em 1962, mas só estreou em agosto de 63, quando o meia gaúcho Chinesinho, que jogava muito, foi para o italiano Modena. Da Guia foi cinco vezes campeão paulista, entre 63 e 76; cinco vezes campeão brasileiro, entre 67 e 73, e ganhou o Rio-São Paulo, grande torneio da época, em 1965. É o recordista de jogos com a camisa do Palmeiras: 902. Marcou 153 gols.

SUPERTIME – Na época do 4-2-4, sistema predominante dos anos 50 e 60, o Palmeiras tinha um supertime: Valdir Moraes, Djalma Santos, Valdemar Carabina, Djalma Dias e Ferrari; Dudu e Ademir da Guia; Gildo, Servílio, Vavá e Rinaldo. Foi o primeiro time chamado de Academia, e a representar a seleção brasileira, pela única vez dirigida por um estrangeiro, o técnico argentino Nelson Filpo Nuñez, na inauguração do Mineirão, em 7 de setembro de 1965, ganhando (3 x 0) da seleção do Uruguai.

SELEÇÃO – Entre 65 e 74, a presença de Ademir da Guia sempre foi muito exigida na seleção, mas ele só fez 12 jogos, entre 65 e 74, e apenas um em Copa do Mundo, em que o Brasil perdeu a decisão do terceiro lugar para a Polônia (1 x 0), no sábado, 6 de julho de 74, em Munique. Assim mesmo, ele só jogou um tempo, substituído no intervalo pelo atacante Mirandinha, do São Paulo. De técnica reconhecida, com precisão nos passes e cobranças de falta, ganhou a pecha de ser um jogador muito lento.

BUSTO – Aos 72 anos, Ademir da Guia foi a figura central da pré-inauguração do Allianz Parque, em 25 de outubro de 2014, ao marcar o primeiro gol no jogo festivo de ex-jogadores do Palmeiras, diante de 10 mil convidados especiais do clube para a festa de seu novo e belíssimo estádio. Ao final, o Palmeiras o homenageou com o busto de bronze e o tornou convidado permanente, em camarote especial, para todos os jogos. 

PAI E TIO – Domingos da Guia, o pai – 1912 – 2000 -, maior zagueiro de todos os tempos, foi tricampeão em times diferentes: Nacional do Uruguai (1933), Vasco (1934), Boca Juniors (1935), e no Flamengo em 39, 42, 43. Jogou de 29 a 32 e de 48 a 50, encerrando a carreira no Bangu, e disputou a Copa do Mundo de 1938. Ladislau, o tio – 1906 – 1988 -, é o maior artilheiro do Bangu, com 222 gols em 325 jogos -, titular do time que ganhou o primeiro Campeonato Carioca profissional em 1933.

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