Dos 36 goleiros convocados de 1930 a 2018 para a seleção brasileira, única presente nas 21 Copas do Mundo, Félix foi um dos quatro titulares, em todos os jogos, das campanhas vitoriosas de 1958-1962 (Gilmar), Félix (1970), 1994 (Taffarel) e 2002 (Marcos). Félix foi um dos cinco goleiros históricos do Fluminense em Mundiais, depois de Velloso (1930), Batatais (1938), Castilho (1950-54-58-62), e antes do último, Paulo Victor (1986). Hoje, 24 de dezembro de 2020, Félix completaria 83 anos.

ALEGRA-ME lembrar e registrar o aniversário de Félix, que vi chegar às Laranjeiras em março de 68, comprado por 150 mil cruzeiros da Portuguesa de Desportos, ainda um dos grandes de São Paulo, que na Copa de 54, na Suíça, teve quatro titulares, todos notáveis: Djalma Santos, Brandãozinho, Julinho e Pinga. Ao fazer o último jogo, em janeiro de 76, Félix deixou a marca de sua passagem pelo Fluminense, com quatro títulos cariocas, e a Taça de Prata, que era o Campeonato Brasileiro da época.

319 JOGOS – Com atuações destacadas em 82 dos 93 jogos dos títulos cariocas de 69, 71, 73 e 75, Félix tornou-se o terceiro goleiro com mais jogos (319) pelo Fluminense, depois de Castilho (698, de 1946 a 1965) e Paulo Victor (368, de 1981 a 1987), último do clube convocado para a seleção, na Copa de 86, suplente de Carlos e Leão. Nas 21 Copas, o Fluminense não teve goleiro em 8, e os únicos titulares, em todos os jogos, foram Castilho, em 54, na Suíça, e Félix, em 70, no México.

OS QUATRO – Félix saiu-se muito bem na comparação dos quatro goleiros brasileiros campeões nas cinco Copas que o Brasil ganhou. Gilmar, único bicampeão mundial, sofreu só 4 gols em 6 jogos na Copa de 58, e 5 gols em 6 jogos na Copa de 62, sendo que, em 58, só foi vazado nos dois últimos (5 x 2 na França e 5 x 2 na Suécia). Felix sofreu 7 gols em 6 jogos na Copa de 70. Taffarel, o menos vazado, sofreu só 3 gols em 7 jogos na Copa de 94, e Marcos, 4 gols em 7 jogos na Copa de 2002.

NADA IGUAL – Félix fez vários jogos no Maracanã, pelo Fluminense e pela seleção, com mais de 150 mil torcedores, mas me disse não haver parâmetro com a Copa do Mundo: “É diferente, muda tudo, é outra história, desde que se entra em campo. A estreia mexe tanto quanto o jogo final. Foi emoção pura, de arrepiar, na estreia e na final”. Bom lembrar: na estreia, o Brasil ganhou de virada da Tchecoslováquia (4 x 1), e na final, repetiu o placar na Itália.

JOGO DA COPA – Na visão de Félix, o jogo da Copa de 70 da seleção brasileira foi o da vitória sobre a Inglaterra: “A seleção inglesa também era muito forte e manteve a base da Copa anterior em que foi campeã”. Bom lembrar: depois do Uruguai (1930) e da Itália (1934), a Inglaterra foi a terceira seleção a ganhar a Copa em casa (1966), feito que seria repetido pela Alemanha (1974) e pela Argentina (1978), e por último, pela França (1998).

LUVAS NA FINAL – Félix também me contou que o treinador de goleiros, Raul Carlesso, trabalhou bem a cabeça dele para usar luvas na final da Copa: “O Carlesso era um estudioso, detalhista. No jogo com a Itália, o tempo mudou, com ameaça de chuva. O gramado estava castigado pela prorrogação, que Alemanha e Itália fizeram três dias antes. Fiz os dois últimos treinos com luvas e me senti bem”. Recordo que Carlesso me disse em entrevista: “As luvas têm ventosas do polvo, dão mais aderência”.

VILA OLÍMPICA – Félix fez 305 jogos pela Portuguesa, entre 56 e 68, depois de ter iniciado no Nacional, da Rua Comendador Souza, e se tornado profissional no Juventus, o Moleque Travesso da Rua Javari, onde era reserva de Oberdan Catani, em final de carreira, após anos de destaque no Palmeiras. No Rio, ganhou duas homenagens especiais com seu nome, no final de 2012: a Escola Municipal, na Rua Carlos Seixas, no Caju, e a Vila Olímpica, na Rua Urarará, em Honório Gurgel.

PEDIDO ESPECIAL – Félix teve que encerrar a carreira em 1976, após o diagnóstico de uma calcificação de sete centímetros no ombro direito, e bem antes de sua morte, na sexta-feira, 24 de agosto de 2012, na capital paulista, onde nasceu em 24 de dezembro de 1937, fez o pedido especial: “Pelo menos quando eu morrer, que parem de dizer que o Brasil ganhou a Copa de 70, apesar do Félix. O Barbosa foi crucificado porque não ganhou a Copa de 50, e eu, por ter sido campeão em 70”.

FÉLIX Mielle Venerando, paulistano, disputou 47 jogos e sofreu 47 gols com a camisa da seleção, entre 1965 e 1976, com 33 vitórias, 9 empates, 9 derrotas. Entre sua única Copa do Mundo, que ganhou como titular em todos os seis jogos, foi também campeão da Taça Rio Branco, em 1967, e da Copa Roca, em 1971.

Fotos: Agência Estado, Tardes de Pacaembu, Terceiro Tempo, Jornal HOje em Dia, Pintrest, CBF, RCI Mais, Esporte R7