Pintinho, um dos pilotos da Máquina Tricolor do bicampeonato carioca 75-76, vive desde janeiro de 80 na Espanha, mas como bom carioca, nascido e criado no morro do Borel, na Tijuca, passa as férias no Rio. Foi muito bom reencontrá-lo na Pizzaria Guanabara, no Leblon, onde o repórter-fotográfico Marcelo Santos registrou nosso bate-papo com Iata Anderson para o canal RESENHA, no youtube, apresentado ontem (16), e que nossos seguidores podem ver e rever.

– O Brasil volta a ser campeão ou completa cinco Copas sem Copa em 2022?
 – Terá que melhorar muito para voltar a ser campeão. Em vez de evoluir, o futebol brasileiro parou e não dá sinais de que pode melhorar, bem diferente do futebol europeu, que se reciclou. Tanto em seleção quanto em clube, não vejo o futebol brasileiro mostrar evolução. O Flamengo é falado como melhor time, bicampeão, mas não ganha de nenhum grande da Espanha, da Itália, da França nem da Inglaterra, como não ganhou a decisão com o Liverpool.
 – Justa a vitória da Itália na final da Eurocopa?
 – Foi, mereceu. A Inglaterra se apresentou bem em todos os jogos, mas não fez a final que se esperava. A Itália poderia ter vencido sem precisar dos pênaltis, em que o técnico inglês vacilou ao colocar os mais novos para as últimas cobranças.


 – Que tal a Itália?
 – Boa seleção. O Mancini está fazendo bom trabalho de renovação, sem desprezar alguns dos mais experientes, entre eles o Bonucci e o Chiellini, bons zagueiros. A Itália vai chegar forte na Copa do Mundo.
 – E a Espanha?
 – Passa por um processo de renovação, igual à Itália, e também tem vários valores novos surgindo. O Luis Enrique foi questionado por não convocar jogador do Real Madrid para a Eurcopa, mas o único que podia ser chamado era o Sergio Ramos, mas estava lesionado. O Sergio vai se dar muito bem no PSG. É um dos melhores zagueiros, mesmo aos 35 anos.
  – E a final da Copa América?
  – A Argentina foi melhor, mereceu. Que belo gol do Di Maria.
  – Acredita em 2022 ou será a quinta Copa sem Copa?
   – O futebol brasileiro está parado. E só tem um ano e meio para melhorar. Será que melhora?
  – Técnicos estrangeiros no futebol brasileiro acrescentam muito?
  – Muito. São preparados, tem mentalidade criativa. Pouquíssimos são os técnicos brasileiros que evoluíram. O futebol brasileiro está parado. Não se vê nada de novo. 
  – Basta ter sido bom jogador para ser bom técnico?
  – Não. Todos os bons jogadores que também são ou foram bons técnicos fizeram curso de preparação. Não é só porque foi bom jogador que vai ser bom técnico. O curso é importante na formação do técnico. Na Europa, por exemplo, o técnico precisa ter certificado do curso para ser contratado.


   – Com que técnico você mais aprendeu?
   – Com o Didi, nosso técnico em 76 no Fluminense. A cada treino ele tinha lição nova pra ensinar. Parava o treino sempre que a gente não fazia o que ele queria, e ainda dizia assim: se não acertarem, o treino não tem hora pra terminar. O Didi sabia muito e orientava com facilidade e simplicidade. 
   – Qual foi a melhor lição que você aprendeu com ele?
   – Ele queria muito que eu aprendesse a bater no estilo folha seca, que ele criou, com a bola passando por cima da barreira e descaindo dentro do gol. Tentei, mas não aprendi bem, não. É complicado. Só fiz dois gols de folha seca na Espanha.
  – Quanto tempo você jogou no Sevilha?
  – De março de 81 a setembro de 84. Fiz 96 jogos, mas em 1990, no centenário do clube, ganhei a camisa 100, homenagem que muito me sensibilizou. O Sevilha é um grande clube, inclusive em patrimônio, e tem um dos estádios mais modernos, não só da Europa, mas do mundo.
   – Saudade da Máquina Tricolor?
   – Muita. Foi uma fase maravilhosa. Em 75, além de ter sido campeão carioca, o Fluminense ganhou do Bayern, no Maracanã, com Sepp Maier, goleirão; Rummenigge, grande atacante; o artilheiro Gerd Muller e o capitão Beckenbauer, titulares da seleção campeã do mundo de 74. Foi uma das minhas vitórias inesquecíveis.


   – Qual dos times era melhor, o de 75 ou o de 76?
   – Os dois eram muito bons. O de 76 ficou melhor com a chegada do nosso capita Carlos Alberto Torres. O Rivellino fez dois campeonatos sensacionais. Tinha o Felix, o Marco Antonio, o Paulo Cezar, campeões do mundo. A festa da estreia do Rivelino, com três gols nos 4 x 1 no Corinthians, em pleno sábado de Carnaval com o Maracanã lotado, foi linda.
   – E o que faltou em 75 e 76 para disputar o título brasileiro?
   – Perdemos a semifinal de 75 para o Internacional, que tinha um grande time, com Manga, Carpegiani, Falcão, Lula, que ganhou a final com o Cruzeiro, que era também um grande time. Em 76 perdemos a  semifinal para o Corinthians nos pênaltis, de novo no Maracanã, mas o Corinthians perdeu a final para o Inter no Beira Rio. Faz parte do jogo.
   – Teu jogo inesquecível?
   – O Fla-Flu de 3 x 0, em que fiz o terceiro gol, e pouco depois o Osvaldo Brandão me convocou para a seleção. Mas o Fla-Flu decisivo de 73, que ganhamos de 4 x 2, em noite de muita chuva, também é bem lembrado.
    – Vasco e Botafogo na Série B?
    – Eu nem sabia, até me assustei, mas não chega a ser tanta surpresa, não. Reflete bem o nível do futebol carioca.
    – Felix, Carlos Alberto Torres, Miguel, Edinho e Rodrigues Neto; Pintinho, Rivelino e Dirceu; Gil, Doval e Paulo Cezar. É o melhor Fluminense de sempre?
     – Pode até nem ser, mas que dava show e ganhava fácil, quem viu se lembra bem.

Fotos: Marcelo Santos