A cinco dias de completar 120 anos, na próxima terça (25), o Club Atlético River Plate, 36 vezes campeão argentino e 4 vezes campeão da Libertadores, anunciou ontem (20), um dia depois da vitória por 2 x 1 sobre o Santa Fé, que colocará em seu museu a camisa 24, usada pelo meia Enzo Perez, primeiro goleiro improvisado, e em recuperação de problema muscular. O time só tinha os 11 em campo, e nenhum jogador na reserva, por causa de 20 infectados pela pandemia, incluídos os quatro goleiros.

BELA HISTÓRIA – Inaugurado em 2009, com peças que contam a bela história de 120 anos do clube a cada década, o museu do River tem várias salas com taças e troféus bem conservados; todas as camisas desde o primeiro uniforme, e uma sala especial com as músicas de Carlos Gardel, maior cantor de tango de todos os tempos, com sucessos imortais, como “Mi Buenos Aires querido”, “El dia que me quieras” e tantos e tantos outros. O museu é um das atrações turisticas da capital argentina.

GIROU MUNDO – Um dia depois da noite inesquecível no estádio Monumental de Nuñez, registrada pelas publicações de todos os continentes, Enzo Perez só quer voltar à vida normal de meio-campo: “Não sou herói nem quero aparecer mais que nenhum outro companheiro da equipe. O que fiz foi pelo River e espero fazer muito mais ainda. Sou tão apaixonado pelo clube quanto meu pai, que me batizou Enzo, em homenagem ao Enzo Francescoli, um dos grandes ídolos da nossa história” – diz Enzo Perez.

HOMENAGEM – Enzo Perez diz também que seu nome foi escolhido por ninguém menos que Zidane, um dos maiores jogadores e técnicos da história. Goleiro por uma noite, o meia Enzo Perez, de 35 anos, não contém a emoção ao lembrar da infância em Maipu, onde nasceu: “Caminhei muito para ver os treinos do River em Mendoza e nunca imaginei que um dia pudesse ser treinado pelo Marcelo Gallardo, que via brilhar de perto como um grande jogador. Foi por ele que escolhi ser meia”.

SEM CASA E COMIDA – Filho mais velho do pedreiro Carlos Perez, que ficava tempos sem trabalho, Enzo Perez abre o coração: “Mudamos várias vezes de casa porque meu pai não tinha como pagar aluguel. Ficamos sem luz, sem água e moramos bom tempo em uma garagem, pedindo ao dono que nos deixasse tomar banho em sua casa. Meu pai vendeu a aliança do casamento para nos dar de comer. Minha mãe dizia que estava sem fome para que sobrasse comida para os filhos. Pedi várias vezes as sobras na padaria, mas muitas noites dormi com a barriga doendo. Não me dá nenhuma vergonha contar isso”.

ELOGIO DO MESTRE – Entre as muitas mensagens que recebeu ontem (20) pela atuação como goleiro, o meia Enzo Perez ficou sensibilizado com a de Ubaldo Fillol, hoje aos 70 anos, goleiro da primeira Copa do Mundo que a Argentina ganhou em 1978: “Feliz, muito feliz, com o elogio do mestre. El Pato (apelido de Fillol) foi um dos notáveis da nossa história”. Fillol brilhou no Racing, Argentinos Juniores, e ao sair do River, em 83, jogou no Flamengo em 84 e 85.

BOM DIZER – Na rodada final da fase de grupos da Libertadores, o River só precisa do empate no jogo da próxima terça (25) com o Fluminense, no estádio Monumental de Nuñez, para ser primeiro do Grupo D. Se vencer, elimina o Fluminense, com quem empatou (1 x 1) na rodada de abertura no Maracanã. O River deverá contar com pelo menos 15 titulares dos 20 infectados pela pandemia. Enzo Perez voltará a ser meia.

Foto: REUTERS/Juan Ignacio Roncoroni | UOL