COMO HÁ ALGUNS ANOS JÁ NÃO PERCO MAIS TEMPO COM CERTOS JOGOS DA SELEÇÃO, tipo o Venezuela x Brasil da próxima quinta (7), vou contar uma historinha das eliminatórias para a inesquecível Copa de 70. Foi a primeira das oito Copas consecutivas que cobri, na época em que repórter tinha acesso aos treinos, e podia entrevistar jogador, técnico, médico, e quem mais quisesse. Foi a melhor de todas as seleções, não na minha opinião, mas na opinião do mundo.

JOÃO SALDANHA assumiu em abril de 69 e pediu só três amistosos antes da estreia nas eliminatórias, segundo ele, suficientes para entrosar os que já estavam escolhidos. Os dois primeiros foram com o Peru, 2 x 1 em Porto Alegre, e 3 x 2 no Maracanã, onde a seleção ganhou o terceiro, com a virada (2 x 1) de Gerson e Jairzinho na Inglaterra, com mais de 100 mil torcedores, o que era rotina na época. Saldanha sempre foi de tornar tudo muito mais simples.

A SELEÇÃO TEVE ESTREIA confortável, ganhando da Colômbia por 2 x 0, gols de Tostão nos seis minutos finais do primeiro tempo, no estádio El Campin, em Bogotá, sem que a altitude de 2.400 metros tenha exercido qualquer influência no rendimento. Quatro dias depois, no Estádio Olímpico de Caracas, pouco mais de 20 mil torcedores, o que era fácil entender porque na Venezuela sempre trocaram os pés pelas mãos, preferindo o beisebol e o basquete.

FAZIA SOL, MAS O CALOR era suportável. Os torcedores só queriam saber de quanto o Brasil ganharia. O jogo foi ruim, 0 x 0 de dar pena, e pouco antes de acabar o primeiro tempo, Saldanha saiu do banco de reservas e foi para o vestiário. Pediu a chave ao zelador, trancou a porta e ficou do lado de fora. Os jogadores queriam entrar e ele não abriu, nem mesmo para que tomassem água. Alguns queriam ir ao banheiro, fazer um pipi, e ele disse: faz aí mesmo.

CALMA E GOLEADA – Quando todos se acalmaram e viram que o vestiário não seria aberto, Saldanha voltou a ser o que era quase sempre, curto e grosso, sem passar a mão na cabeça de ninguém: “Não tem vestiário aberto, não tem água, não tem pipi, não tem papo de intervalo. Voltem pro campo e façam o que vocês mais sabem fazer: jogar, e jogar bem”. Resumo: Tostão fez três gols em menos de 20 minutos, Pelé fez dois em menos de 10 minutos, Brasil 5 x 0.

FOI A ÚNICA VEZ NA HISTÓRIA, que uma seleção brasileira não entrou no vestiário no intervalo; não bebeu água, não chupou laranja, não fez pipi. E não era uma seleção qualquer, não: Félix, Carlos Alberto Torres, Djalma Dias, Joel Camargo e Rildo (Everaldo); Wilson Piazza e Gerson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Edu. Dias desses, batendo papo e relembrando historinhas, Jairzinho me contou: “No primeiro treino, o Saldanha levou a seleção escalada em um pedacinho de papel de guardanapo”… 

Foto: Vermelho org