A Copa do Mundo de 1934 foi classificada pelos observadores internacionais como a Copa do Fascismo. O ditador Benito Mussolíni exigia que os jogadores, antes e depois dos jogos, erguessem o braço para fazer a saudação fascista aos torcedores.

A final da segunda Copa, primeira das onze na Europa, em 1934, na Itália, foi a única das 21 Copas em que os goleiros eram capitães: o italiano Gianpiero Combi encerrou a carreira como campeão, e o tcheco Frantisek Planicka, que se despediu, também como capitão, na Copa seguinte, em 1938, na França, em que a Itália foi a primeira a ganhar duas consecutivas. Nascido em Turim, Combi fez 47 jogos pela seleção e 367 jogos pela Juventus, seu único time, cinco vezes campeão italiano.

INÍCIO AMARGO – Na estreia pela seleção, dez anos antes da Copa, em 6 de abril de 1924, Gianpiero Combi saiu desolado do amistoso no estádio de Budapeste, onde a Itália perdeu de 7 x 1 da Hungria. Mas recuperou a confiança, com grandes atuações, no pentacampeonato da Juventus, de 1931 a 1935, campanha só superada pela própria Juventus, hexacampeã de 2012 a 2017. Chorou, ao receber a taça das mãos do próprio Jules Rimet – 1873 – 1956 -, francês que idealizou a criação da Copa do Mundo.

EMOCIONANTE – Não só pelos 32 anos, Gianpiero Combi decidiu encerrar a carreira, campeão e capitão, mas porque a missão estava cumprida, no clube e na seleção, como ele próprio recordou: “Foi uma final emocionante, que só ganhamos de virada (2 x 1), na prorrogação. A seleção tcheca era muito boa. Ao descer da tribuna, com a taça, Combi foi ovacionado pelos 55 mil torcedores, que lotaram o estádio de Roma. A taça passou de mão em mão, beijada por todos os campeões.

FOTO HISTÓRICA – Hoje, 10 de junho de 2020, faz 86 anos da única final de Copa do Mundo com os goleiros-capitães: o italiano Gianpiero Combi, à esquerda, cumprimenta o tcheco Frantisek Planicka, diante do árbitro sueco Ivan Eklind, no Estádio Nacional do Partido Fascista, em Roma. 

O CAPITÃO VICE – Frantisek Planicka, o capitão vice-campeão mundial, tinha 30 anos e ganhou o apelido de Gato de Praga, por suas defesas acrobáticas no Slavia, oito vezes campeão tcheco e seu único time em 983 jogos, 724 como capitão, de 1923 a 1939. Na Copa de 38, também capitão, voltou a ser eliminado (2 x 1 e outra vez de virada, na prorrogação) pelo Brasil, mas ganhou o prêmio de melhor goleiro. Fez 73 jogos pela seleção e recebeu em 1985 o troféu fair play da Unesco, por 16 anos sem sofrer uma só expulsão de campo. Nascido em Praga, em 2/6/1904, foi o último da seleção de 1934 a morrer, aos 92 anos, em 20/7/96.

CAMPEÃO DO MUNDO NO FLAMENGO

Cinco anos depois de ter sido campeão do mundo, o ponta-esquerda Raimondo Orsi, de 38 anos, argentino, naturalizado italiano, foi contratado pelo Flamengo e participou de dois dos 24 jogos do título carioca de 1939, o primeiro dos oito do técnico Flávio Costa. Orsi substituiu Jarbas, na derrota (2 x 0) para o Vasco, na Gávea, e foi titular na vitória (2 x 1) sobre o Bangu, no estádio da Rua Ferrer, em Bangu. Na final da Copa de 34, Orsi fez o gol de empate, na virada (2 x 1) da seleção italiana.

BRASILEIRO CAMPEÃO – Embora só tenha participado da estreia  7 x 1 nos Estados Unidos , o atacante Filó, campeão paulista de 1930 pelo Corinthians, tornou-se o primeiro brasileiro campeão do mundo em 1934. Anfilogino Guarisi, o Filó, era paulistano e fez 43 gols em 134 jogos pela Lazio, de Roma, de 1931 a 1937. Filho de italiana, na Lazio era Guarisi, sobrenome da mãe, e seu único gol pela seleção foi na vitória sobre a Grécia, nas eliminatórias.

FASCISMO NA CARONA – Não é de hoje que políticos pegam carona no futebol. O ditador Benito Mussolíni – 1883 – 1945 -, do Partido Nacional Fascista, usou a Copa de 34 para mostrar sua força ao mundo. Ao entrar em campo e após os jogos, a seleção italiana era obrigada a fazer a saudação fascista aos torcedores. Il Duce (O líder, em italiano) Mussolini mandou fazer troféu com sua efígie e o entregou, no gramado, ao goleiro-capitão Combi, após a conquista da Copa do Mundo.

NAZISMO NOS JOGOS – Bom lembrar: dois anos depois, o ditador Adolf Hitler – 1889 – 1945 -, líder do Partido Nazista e principal instigador da Segunda Guerra Mundial – 1/9/39 a 2/9/45 -, fez o mesmo nos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim. Queria mostrar a supremacia da raça ariana e recusou-se a entregar a medalha de ouro ao negro americano Jesse Owens, de 22 anos, que bateu os recordes mundiais de 100 e 200 metros rasos. Fuhrer (Líder, em alemão) sentiu-se humilhado e envergonhado.

REGISTROS HISTÓRICOS DA COPA DE 1934

  • Vittorio Pozzo – 1886 – 1968 – técnico da seleção italiana em 95 jogos, com 63 vitórias, e é até hoje o único a ganhar duas Copas do Mundo consecutivas, em 1934 e 1938, além da medalha de ouro dos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim. Pozzo nasceu em Turim e só dirigiu dois times, o Torino e o Milan.
  • Foi a primeira Copa com eliminatórias, classificando-se 16 das 32 seleções. A única das 21 Copas, de 1930 a 2018, sem a participação do campeão da Copa anterior. O Uruguai não foi, em represália não só à Itália, mas a todas as seleções da Europa que não prestigiaram, em 1930, a primeira Copa do Mundo que organizou e ganhou em Montevidéu.
  • Com a desistência do Chile e do Peru, Brasil e Argentina entraram como convidados da FIFA, sem eliminatórias. Foram eliminados logo no primeiro jogo do mata-mata. O Brasil perdeu para a Espanha (3 x 1) e a Argentina para a Suécia (3 x 2). Nas quartas, a Itália eliminou a Espanha (1 x 0 no jogo de desempate) e a Alemanha eliminou (2 x 1) a Suécia.
  • O primeiro jogo Itália 1 x 1 Espanha foi tão violento que sete jogadores da Espanha não conseguiram se recuperar para o jogo de desempate, no dia seguinte. As Copas de 1934 e 1938 são consideradas as mais violentas da história de todas as 21 Copas, com críticas duras aos árbitros, que permitiam faltas desleais em campos de pouca qualidade.
  • Entre as dezesseis seleções, o Brasil ficou em antepenúltimo, à frente apenas da Bélgica, eliminada pela Alemanha (5 x 2), e dos Estados Unidos, que terminaram em último, ao sofrerem a maior goleada para a Itália (7 x 1), na fase do mata-mata. Primeiro africano na Copa, o Egito, eliminado pela Hungria (4 x 2), só voltaria 12 Copas depois, em 1990, na Itália.
  • A segunda Copa do Mundo, de 27 de maio a 10 de junho de 1934, registrou 70 gols em 17 jogos, média de 4.12 gols por jogo, disputada em oito estádios. O total de público foi de 358 mil, média de 21.058 pagantes por jogo. O artilheiro da Copa foi o atacante tcheco Oldrich Nejedly, com cinco gols. Ele só não marcou na decisão.
  • O atacante Giuseppe Meazza, ídolo de sempre da Inter de Milão, ganhou o prêmio de melhor jogador da Copa de 1934. O estádio municipal de Milão tem seu nome, mas só nos jogos da Inter, porque Meazza também foi da seleção italiana bicampeã mundial em 1938. O arquirrival Milan, em seus jogos, chama o estádio de San Siro, bairro onde está localizado.
  • Quatro anos depois, a Itália tornou-se a primeira a ganhar duas Copas do Mundo consecutivas, vencendo (4 x 2) a Hungria, na final de 19 de junho de 1938, no estádio Colombes, em Paris. Só catorze anos depois, a seleção brasileira igualaria o feito, ao vencer (5 x 2) a Suécia, na final de 29 de junho de 1958, no estádio de Solna, em Estocolmo, e ao ganhar da Tchecoslováquia (3 x 1), na final de 17 de junho de 1962, no Estádio Nacional de Santiago do Chile.

Fotos: Wikipédia, Imortais do Futebol, youtube,