Marcelo Santos, Zico, Deni Menezes e Iata Anderson

MAIOR ÍDOLO E ARTILHEIRO DO FLAMENGO, passado sempre presente no coração da Nação rubro-negra, Zico nos recebeu com muita calma, para uma entrevista descontraída, relaxada, leve e solta, no Centro de Futebol com seu nome, o CFZ. No meio da conversa, ele surpreendeu com uma revelação até então inédita:

“SÓ NÃO SOU HUMILDE QUANDO FALO DE PASSES porque me considero o melhor do mundo nos passes. Aí então peço licença para deixar de ser humilde” – diz o eterno camisa 10, de 831 gols em 1.271 jogos na carreira, e de 508 gols em 732 jogos com a camisa do Flamengo: “Jogos oficiais, só jogos oficiais” – ressalta.

ZICO DIZ SER IMPOSSÍVEL lembrar só de um jogo como inesquecível: “Não dá. Teve o da minha estreia (lançado aos 18 anos, então com a camisa 9, 5ª feira, 29 de julho de 1971, pelo paraguaio Fleitas Solich, técnico do primeiro tri do Flamengo no Maracanã – 53-54-55 -, em que não fiz gol, mas dei passe para o 1º, do Nei” (2 x 1 no Vasco, o da vitória foi de Fio, que depois Jorge Ben cantaria como Fio Maravilha).

ZICO RELEMBRA o 1º dos 48 gols em jogos oficiais pela seleção, 4ª feira, 25 de fevereiro de 1976, no estádio Centenário, em jogo válido pela Copa Rio Branco e pela Taça do Atlântico, em que usou a 8 porque a 10 era de Rivelino: “Nelinho fez 1 x 0, eles empataram e na segunda falta eu bati e fiz o da vitória. Como esquecer?”

ZICO VOLTA A CITAR O MÍTICO CENTENÁRIO, estádio da final da primeira Copa do Mundo (Uruguai 4 x 2 Argentina, 1930): “Cinco anos depois voltei lá e o Flamengo foi campeão da Libertadores pela 1ª vez”. Repórter da Rádio Nacional, lembro-me bem da noite da 6ª feira, 13 de novembro de 1981: Zico era o capitão, entrou com Leandro, segurando a bandeira do Uruguai, fez os gols, de voleio e de falta: 2 x 0.

ZICO ENCAIXA O MUNDIAL DE CLUBES, único da história do Flamengo, com os 3 x 0 no Liverpool, campeão da Europa, na tarde do domingo, 13 de dezembro de 1981: “O jogo marcou a história do Flamengo e da nossa geração” – diz Zico, que não fez gol, mas teve participação decisiva nos dois de Nunes e no de Adílio, e dividiu com o grupo as honras de homem do jogo, compartilhando a venda do carro da Toyota.

UMA DAS VIRTUDES DE ZICO É A GRATIDÃO. Durante a conversa, ele lembra de Celso Garcia, vizinho e narrador da Rádio Globo, companheiro querido de tantas jornadas: “O Celso abriu as portas para a minha carreira ao me levar ao Flamengo”, cita com alegria, lembrando igualmente do apoio do ex-presidente George Helal: “O Helal é outra figura marcante na minha história”.

ALÉM DE SOLICH, QUE O LANÇOU, ZICO relembra de mais seis técnicos: Jouber, com quem ganhou o 1º título carioca em 1974; Coutinho, campeão carioca 1978-1979 e Brasileiro 1980; Carpegiani, único campeão da Libertadores e Mundial; Osvaldo Brandão e Telê Santana, e o irmão Edu, seu assistente em times e seleções. 

ZICO NÃO SE CONTEVE E ENCAIXOU UM PALAVRÃO, algo que ouvi dele pela primeira vez, quando lhe perguntei sobre Telê Santana, meu amigo do tempo de jogador do Fluminense: “Foi o mais perfeccionista com quem trabalhei. Cobrava com insistência passes e finalizações. Se a gente chutava 10 e só fazia 9 gols, ele abria os braços e fechava a cara: “Porra, por que não acertou as 10”.

OS CINCO MELHORES QUE ZICO viu: Pelé, Garrincha, Maradona, Cruyff e Beckenbauer. E quando insisti: Pelé ou Garrincha, ele mandou de primeira: “Pelé, foi mais completo. Por isso, coloquei o Garrincha em 2º.” Eu pensei na comparação entre os dois grandes argentinos, mas ele nem citou o Messi.

POR QUE O JOGADOR BRASILEIRO chuta pouco de meia distância? Zico não tem dúvida de que é por falta de orientação e de treinamento: “Antes se dizia que os gramados eram ruins, mas hoje não há mais desculpa, são uns tapetes. Penso que falta orientação e alguns jogadores preferem não tentar com receio de errar. Os europeus fazem belos gols porque treinam e não têm medo do erro”.

O DRIBLE OU O PASSE? Zico não tem dúvida: “O drible é sempre mais bonito”. E o futebol brasileiro com tanto técnico estrangeiro? Zico é direto: “Não sou contra, não. Fui lançado por um estrangeiro e fui técnico de seleções estrangeiras. Se o técnico é bom tem que ser contratado por clube ou até pela seleção”.

ZICO, 2022 é a última das nove Copas com 32 seleções. A partir de 2026, serão 48. O Brasil volta a ser campeão ou completa cinco Copas sem Copa? “Tem chance. A seleção tem evoluído e pode chegar bem ao Catar”. TITE será o terceiro técnico em duas Copas consecutivas. Pode tirar proveito? “Se souber, pode. A experiência da Copa anterior pode ajudá-lo muito”.