Quase todos conhecem a história de Zico, capitão do único time do Flamengo, que no mesmo ano ganhou a Libertadores e o Mundial de clubes; artilheiro do Flamengo em sete temporadas consecutivas; maior artilheiro dos 70 anos do Maracanã, então o maior estádio do mundo; melhor jogador do Flamengo em dez anos consecutivos, e artilheiro em cinco temporadas consecutivas do futebol brasileiro, em um resumo do que foi.

NO ENTANTO, poucos conhecem a estrutura que deu a Zico a base sólida para a carreira de sucesso, com tantos gols e com tantos títulos. Incluo-me entre esses poucos porque conheci o português Antunes e a carioca Matilde, pais dele, que me receberam algumas vezes na Lucinda Barbosa, onde a família morava em Quintino. Com Zeca, Nando, Tonico e Edu, ali estava o berço de ouro do caçula Zico e de Zezé, a primeira, única mulher dos seis irmãos.

BÊNÇÃO E BEIJO – Zico, que hoje, 3 de março de 2020, completa 67 anos, e os cinco irmãos, foram criados no tempo em que os filhos pediam a bênção e não saíam de casa sem antes beijar os pais. Foi com essa educação que dona Matilde e seu Antunes souberam criá-los. Antunes, o Zeca da família, teve a melhor fase no Fluminense. Edu, destaque entre os melhores da época áurea do América, e Zico, o maior jogador e ídolo dos 125 anos do Flamengo.

FUTEBOL DE SALÃO – Foi no River, no vizinho bairro da Piedade, o início de Zico, em quadra, em 1967, quando o futsal de hoje era futebol de salão. Foi bem fácil, em pouco espaço, observar a grande habilidade. O olho clínico de Celso Garcia, dos melhores narradores com quem trabalhei no rádio, estava atento. Depois de ver Zico fazer sete gols numa vitória de 11 x 2 do River, Celso pediu ao seu Antunes e a dona Matilde para levá-lo ao Flamengo.

A PRELIMINAR – Flamengo x Vasco preliminar de Fluminense x Botafogo? Pois foi assim, na estreia de Zico, em 29 de julho de 1971, lançado pelo paraguaio Fleitas Solich, único técnico estrangeiro tricampeão carioca, o primeiro do Maracanã, em 53-54-55. Na época, passe; hoje, assistência. Zico deu o passe para Fio, que só seria Maravilha no ano seguinte, na música de Jorge Ben, fazer o gol da vitória (2 x 1) que eliminou o Vasco da Taça Guanabara.

PRIMEIRO TÍTULO – Zico foi sete vezes campeão carioca, mas no primeiro título, em 1972, só entrou em dois dos 27 jogos, substituindo Caio no 0 x 0 com o Botafogo (26/3/72), e no lugar de Zanata na abertura do returno, 2 x 2 com o Vasco(7/5/72). As figuras eram os laterais Moreira e Vanderlei (Luxemburgo), e o ataque Rogério, Caio, Doval e Paulo Cesar, no quarto título carioca de Zagallo, primeiro no Flamengo.

PRIMEIRO RECORDE – No segundo título carioca, Zico participou de todos os 27 jogos, firmou-se como titular e estabeleceu seu primeiro recorde: artilheiro do time no ano, com 49 gols, superando outro notável, o alagoano Dida, que havia marcado 47 em 1959. Os bons do time eram os laterais Júnior, então na direita, e Rodrigues Neto; o meio com Zé Mário e LiminhaDoval e Zico, artilheiro do time, do técnico Jouber, ex-lateral-direito.

GERAÇÃO DE OURO – Zico foi o símbolo da geração mais vitoriosa dos 125 anos do Flamengo, que ganhou o Brasileiro de 80, a Libertadores e o Mundial de 81, com 3 x 0 no Liverpool, cinco vezes campeão inglês, três vezes vencedor da Supercopa dos Campeões, mais time que o de 2019. Zico deu os dois passes para os gols de Nunes, e bateu a falta que o goleiro Bruce Grobbellar não segurou e Adílio marcou. Craque do jogo, ganhou o Toyota e dividiu com os companheiros o dinheiro da venda do carro.

SETE CHAVES – Um dos passes primorosos, irretocáveis, que vi de Zico, foi o que deu a Nunes no 1 x 0 no Grêmio, no  título brasileiro de 82, no antigo estádio Olímpico, em Porto Alegre. Em 83, no Maracanã, o Flamengo fez 3 x 0 no Santos, a quem se igualou em títulos de campeão brasileiro (3). Foi o último jogo de Zico, vendido um mês antes para a Udinese, em transação sob sete chaves, a fim de evitar a revolta dos torcedores.

ARTILHEIRO MORAL – Em um time modesto, Zico foi vice-artilheiro do Italiano com 19 gols, em verdade o artilheiro moral do campeonato porque o francês Michel Platini, da poderosa campeã Juventus, marcou só mais um gol (20) e fez mais seis jogos. Na Udinese, Zico marcou 57 gols, 17 de falta, e provocou debate em programas da televisão italiana: como evitar os gols de falta de Zico? A resposta nunca foi encontrada.

732 JOGOS, 509 GOLS – Só 56 jogadores marcaram 50 gols ou mais pelo Flamengo. Zico fez 509 gols em 732 jogos: 153 em Campeonatos Brasileiros. Sei lá quantas vezes o vi, após os treinos na Gávea, tirar a camisa e colocá-la na intercessão travessão/trave, alternando os lados, para treinar, sozinho, as cobranças, sempre com a parte interna do pé direito. Não à toa, Zico é até hoje o recordista brasileiro de gols de falta: 101

PELÉ, GARRINCHA, DIDI E ELE – Zico detém o recorde de ter sido três vezes o melhor sul-americano (77-81-82). No Hall da Fama da FIFA, só quatro brasileiros: Pelé, Garrincha, Didi e Zico, que também está, entre Pelé e Garrincha, como o terceiro melhor brasileiro do século 20. Zico foi dos primeiros a ter estátua no Hall da Fama do Maracanã, como maior artilheiro dos 70 anos do estádio, bom repetir, com 333 gols em 435 jogos. É o único a ter estátua na entrada da sede social do clube.

LIBERTADORES – Arthur Antunes Coimbra, aniversariante de hoje, 3 de março de 2020, é o maior artilheiro do Flamengo na Libertadores com 11 gols. E foi em cinco temporadas o principal artilheiro do futebol brasileiro: 63 gols em 1976; 48 gols em 1977; 89 gols em 1979; 53 gols em 1980, e 59 gols em 1982. Zico foi o maior artilheiro do Brasileiro de 1980, com 21 gols, e de 1982, também com 21 gols. É o maior artilheiro do Flamengo na Libertadores com 11 gols, no histórico título de 1981.

BEM-SUCEDIDO em todas as atividades, Zico é hoje diretor-executivo do Kashima Antlers, do Japão, que fez uma estátua, em tamanho natural, à frente do estádio. Zico  fez a transição do futebol do clube, tornando-o profissional. Casado com Sandra, é pai de Jr (43), Bruno (42) e Thiago (37). Seu nome, Arthur, foi escolhido em homenagem ao avô, pai de dona Matilde. Um dia especial e muito feliz! Parabéns, Zico!