Revelado no futsal do Fonseca, onde teve infância bem humilde, na Zona Norte de Niterói, Edmundo foi levado ao Vasco, aos 10 anos, pelo namorado da tia, professor de judô. O Vasco era mesmo o destino do artilheiro, um ano depois dispensado do Botafogo, por andar nu na concentração. Edmundo completa 49 anos hoje (2), com 464 gols em 743 jogos, em suas cinco passagens pelo Vasco, e com histórias nem todas tão conhecidas.

TALENTO – Edmundo teve ascensão rápida por seu talento, mas lhe faltou estrutura para assumir cedo os encargos  da casa de uma família de pouca renda. A importância da responsabilidade criou nele certo destempero, que se refletia nos problemas em campo. Teve sorte de ser dirigido por um técnico bem tranquilo, Nelson Rosa Martins, oNelsinho, que o lançou, ao lado de Bebeto, em estreia inesquecível no Pacaembu: Vasco 4 x 1 Corinthians.

EDMUNDO não fez gol, mas teve atuação destacada naquele 26 de janeiro de 92, ano em que marcou 24 gols em 32 jogos, e foi revelação e campeão carioca, em 20 dos 24 jogos sob o comando de Joel Santana, e estreou na seleção brasileira, com o técnico Parreira, campeã da Copa da Amizade, no Coliseu de Los Angeles. Os bons desempenhos foram excelente prenúncio de 1993, quando o Palmeiras pagou 2 milhões de dólares ao Vasco.

SOCO E TESOURA – O Palmeiras não era campeão paulista desde 1976, e só havia sido bi em 1926-27. Edmundo foi uma das figuras do título de 93. No primeiro jogo da decisão, Viola fez o gol do Corinthians (1 x 0) e comemorou imitando um porco, símbolo do Palmeiras, que fez 4 x 0 no segundo jogo, e Edmundo retribuiu a provocação. Levou um soco do ponta Paulo Sergio e revidou com uma tesoura voadora muito bem aplicada. 

BICAMPEÃO – Os outros dois títulos de 93 foram o Rio-São Paulo e o Brasileiro. Edmundo ganhou a Bola de Prata da Placar. Em 94, bi paulista e bi brasileiro, nada melhor que sobre o arquirrival Corinthians, em um time de respeito com Roberto Carlos, Rivaldo, Mazinho, Evair, Antonio Carlos e Zinho. Os palmeirenses reviviam a Academia dos anos de ouro de Ademir da Guia, carioca de Bangu, tratando com muito carinho pelos torcedores.

URSO DE PELÚCIA – Depois que Edmundo foi parar na polícia, após agredir o lateral André, do São Paulo, e ficou seis dias detido em hotel do Equador, ao agredir um repórter que o entrevistou sobre o pênalti que perdeu na derrota para o Nacional, Placar bateu recorde de 240 mil revistas vendidas com Edmundo na capa, acariciando um urso de pelúcia. A trégua durou pouco. Ele voltou a brigar com Rincon, Evair e Luxemburgo, e saiu do Palmeiras.

REVOLTA – Os torcedores não o perdoaram: “Fora, Edmundo. Você é o maior traidor do mundo”. Tempos depois, refletindo, reconheceu: “Se pudesse, teria jogado a vida toda no Palmeiras, como fez o Marcos (goleiro de 534 jogos, de 1992 a 2011). O narrador Osmar Santos referia-se a Edmundo como animal: “Ele joga muito, é um animal”.O tratamento ganhou duplo sentido e descambou para o pejorativo, criando uma imagem muito negativa.

O CORO – Edmundo voltou ao Rio desfilando no caminhão dos bombeiros em 95, ano do centenário do Flamengo. Durante bom tempo, o coro da torcida do Vasco, entoado com o tema musical da extinta Varig, ficou na cabeça dele: “Romário, Sávio, Edmundo, pior ataque do mundo”. Perdeu o controle e mostrou a genitália para a torcida! Em jogo da Libertadores com o Velez fez um gol nos 3 x 0, levou e deu cotovelada no zagueiro Zandoná. O jogo se transformou em batalha campal.

REQUEBRADAS – Na volta ao Vasco, em 96, Edmundo salvou o time do rebaixamento com três gols em 4 x 1 no Flamengo. Em 97, no primeiro jogo da decisão com o Botafogo, o Vasco venceu (1 x 0), e Edmundo requebrou diante do zagueiro Gonçalves, criando nova confusão. No segundo jogo, Dimba fez o gol do título do Botafogo, mas Edmundo não reagiu. A sequência da temporada foi esplendorosa para ele.

CONSAGRAÇÃO – Edmundo superou o recorde de vinte anos de Reinaldo, do Atlético Mineiro, que havia marcado 28 gols no Brasileiro, e com 29 gols, em 1997, e foi campeão ao lado dos experientes Carlos Germano, Mauro Galvão, Luisinho e Evair, e dos novatos Juninho Pernambucano, Pedrinho, Felipe e Ramon, atual técnico. Dos 29, seis gols foram nos 6 x 0 no União São João, e três gols nos 4 x 1 no Flamengo, na semifinal. “Foi o título da minha vida”.

BRIGA NA ITÁLIA – Em litígio com o Vasco, por salários atrasados, que cobrava sempre, Edmundo foi vendido em 1998 por 9 milhões de dólares para a Fiorentina, que terminou o campeonato em terceiro, graças a ele e ao argentino Gabriel Batitusta, maior artilheiro da história do time: 202 gols em 328 jogos, de 91 a 2000. Edmundo ofendeu o técnico GiovanniTrapattoni,ao ser substituído em jogo com a Roma, e voltou a insultá-lo no vestiário. 

EDMUNDO saiu no tapa com o meia Emiliano Bigica, até então seu melhor amigo, e ao passar o Carnaval de 99 no Rio, chamou Batistuta de perdedor. Ao voltar, encontrou um bilhete dos torcedores na porta de sua casa: “Agora chega. Silêncio e vitória”. O clima ficou insustentável. Os jogadores e o técnico já não o queriam. Edmundo não teve outra saída: acertou a volta ao Vasco, que pagou 15 milhões de dólares, com apoio de um banco americano.

PIOR MOMENTO – Romário era seu desafeto, mas fizeram uma trégua, antes do Mundial de clubes de 2000, quando arrebentaram na semifinal com o Manchester United (3 x 0, Romário, Edmundo e Juninho). Na final, Edmundo foi um dos que perderam pênalti e o Corinthians ganhou o título. “O pior e o mais triste momento da minha carreira”. Depois, Edmundo perdeu a braçadeira de capitão para Romário, e ficou dois meses na reserva.

SEQUÊNCIA RUIM – Desgastado, Edmundo foi para o Santos – 13 gols em 20 jogos -, mas não havia dinheiro e ele voltou a reclamar. Emprestado ao Napoli, foi eleito o pior do Italiano, e o time rebaixado. Livre, foi para o Cruzeiro, classificado entre as cem piores contratações da temporada. No Tokyo Verdy, fez cirurgia no pé e voltou ao Rio para o Carnaval. Ficou pouco tempo em outro time japonês, Urawa Red, e retornou com saudade da família. 

A DESPEDIDA – O Vasco reviveu a final da Libertadores de 98, com o Barcelona de Guaiaquil, em 28/3/2012, como jogo de despedida de Edmundo, que fez dois gols nos 9 x 1, diante de 25 mil torcedores, em São Januário. Ele saiu do Vasco, onde entrou em 1992, com 165 gols em 252 jogos. Na seleção, 10 gols em 39 jogos. Na Copa de 98, com o corte de Romário, foi reserva de Bebeto. Na final, substituiu Cesar Sampaio nos 15 minutos finais, quando a França, com 3 x 0, comemorava seu primeiro título.

O DESASTRE – Em dezembro de 1995, dirigindo um Cherokee, segundo o noticiário da época, em alta velocidade, Edmundo matou três pessoas que estavam em um Fiat Uno, na Lagoa, Zona Sul do Rio. Condenado a quatro anos e meio, no semiaberto, por homicídio culposo, só ficou uma noite na cadeia. Em 2011, Joaquim Barbosa, ministro do Supremo Tribunal Federal, considerou a extinção da pena. 

Fotos: bolavip, torcedores, wikipédia, Hipólito Pereira e superfla